sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A bandeira e o bicho homem


Por: Lucas Cardoso

O ano era 2008, um sábado dos quais não me recordo à data, estamos eu, meu pai e meu padrinho decididos a acompanhar uma partida de nosso time do coração, nesse caso, o do Parque São Jorge, vulgo Corinthians. Aquele foi um período perturbador para torcedores como nós, já que o timão enfrentava (não com tanta dificuldade assim) o calvário de estar disputando a série B do brasileirão.

Pegamos o carro horas antes de a partida começar, fomos até o Pacaembu, o jogo seria contra o tradicional Criciúma e como quase todos os ingressos estavam esgotados, acabamos adquirindo com um dos cambistas que estava nos arredores.

Após a compra de nossos tickets, adentramos o caldeirão que aos poucos se enchia de corinthianos ávidos pela vitória, que tomavam conta de todo o estádio, enquanto, bem no canto, estavam alguns torcedores do time adversário, meio acanhados. Ficamos no setor amarelo, ou seja, arquibancadas e com a visão diagonal (confesso que achei esse ângulo um tanto ruim, mas beleza) do gramado, que mais parecia um tapete de veludo que reluzia ao sol escaldante das quatro horas da tarde.

No começo tudo ia bem, nos sentamos relativamente no meio e deixamos por estar, porém, ao passar de alguns minutos, percebemos uma movimentação de bandeiras, algumas carregadas por mais de dez pessoas, além de torcedores caracterizados por suas respectivas organizadas, que se aglomeravam próximo de onde estávamos acomodados, decidimos então trocar de lugar e dar espaço aos mais assíduos.

Nesse momento, nos mudamos para o lado oposto de onde estávamos antes e ficamos observando a movimentação, que trazia consigo um ar meio denso, com uma mistura de euforia e tensão, foi aí que, alguns minutos antes do jogo começar uma das bandeiras foi aberta e carregada por todo setor, inclusive por cima de nossas cabeças.

Após algum tempo de partida, que estava empada sem gols, percebemos um alvoroço que vinha do local onde nos encontrávamos anteriormente, a princípio, não endentemos o que estava acontecendo, foi então que nos demos conta de que os torcedores (da mesma organizada, por sinal) trocavam socos e pontapés e só pararam com a chegada da segurança, que, delicadamente, distribuiu cassetetes nos envolvidos até que a confusão acabasse.

Cenas da barbárie que o menino Lucas presenciou no estádio. Lamentável. O futebol perdeu um ilustre torcedor por causa disso kkk. 

Só naquele momento que me dei conta da animosidade que a competição é capaz de despertar no ser humano, que mesmo, teoricamente, sendo companheiros de torcida acabam se deixando levar e entram num combate contra desnecessário e sem sentido.

Além desse despertar de consciência sobre as atitudes em questão, fui acometido por uma epifania que me fez perceber que se eu, meu pai e meu padrinho não tivéssemos saído daquele lugar, provavelmente, sobrariam alguns socos e chutes para nós.

Ao final, o que menos importou foi o resultado da partida, que terminou do mesmo jeito que começou, já que, na verdade, eu que nunca fui, e espero nunca ser, fanático por futebol me dei conta que não importa se você está do mesmo lado, porque quando se trata do bicho homem, o buraco é mais embaixo do que se imagina.

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