Por: Lucas Cardoso
Era uma tarde comum, por volta de umas quatro horas da
tarde, o sol ainda estava brilhando forte, o calor se abatia sobre mim, que, ao
som de meus fones de ouvido, subia a ladeira de casa após mais um dia de
trabalho. É então que, nesse percurso, já próximo do duzentos e quarenta,
número da minha residência, vejo uns garotos na rua, meus vizinhos, no caso,
jogando aquele futebol maroto, esbanjando a juventude e energia que a maioria
das crianças tem na infância.
Continuei meu caminho lentamente enquanto observava a
partida, que ocorria de pés descalços, já que os chinelos demarcavam as traves
de ambos os lados, e a bola, um pouco surrada, corria de um lado para o outro,
entre as calçadas, com os dois times divididos a mercê da sorte e digladiando a
posse da pelota, que, indiferente aos pés que a possuíam, se mantinha obediente
e pronta para ser mandada para onde quer que fosse.
Foi ai, ao observar os garotos, que me veio à memória, nem
tão vaga ou tão distante, os tempos em que eu e meus amigos jogávamos sob esse
mesmo sol e com os pés descalços, no mais acolhedor (e perigoso, eu admito)
campo de peladas, que é a rua. Passávamos tardes inteiras correndo atrás da
bola, sem nem se preocupar com mais nada, só o que importava era fazer o gol e
não perder a pelota, que por vezes, aos chutes mais fortes, corria desembestada
ladeira abaixo, enquanto um dos que ficavam de próximo, ou mesmo um dos
jogadores, corria desesperadamente em seu encalço.
Na real nunca fui lá muito bom jogador, assim como outros amigos e pelejadores de cada dia, era um verdadeiro perna de pau, mas isso não fazia diferença, o que nós buscávamos era o sabor da diversão despretensiosa e infantil que alimentava nossas férias de verão, o que valia mais que tudo, para nós, entre aquele gol desperdiçado, um tampão do dedo arrancado por um chute errado, às vezes discussões de jogo, era o refrigerante no copo descartável ao fim das partidas, que nos fazia jogadores.
Nunca tive vontade de me tornar um jogador profissional,
tanto por falta de habilidade como por falta de vontade, por vezes, acompanhava
meu time do coração, o Corinthians, que por herança, quase que divina, de meu
pai, foi me passado como fonte de orgulho (ou não, ai depende da fase). Torcia
a cada partida que eu assistia, comemorava junto aos fogos de artifício os gols
marcados.
Passar pelos
garotos, no campo (demarcado com os chinelos) e ver em seus olhos o prazer de
estar ali, se divertindo sem se preocupar com o amanhã, me fez ver que estou
envelhecendo, não há mais tampões arrancados, gols feitos ou perdidos, nem mais
aquela doce e sutil infância, que em meio àquelas peladas, driblava a
maturidade e as responsabilidades dos adultos, e que a cada partida se
renovava, porque apesar de cada apto final (que ia de acordo com as regras
futebolísticas da rua) estaríamos mais uma vez a espera da próxima partida, com
os pés descalços e com a vontade de fazer gols.
Agora, que atravessei esse campo, tanto o da rua, onde os garotos jogavam naquele dia, quanto o da infância, chego em casa, abro o portão e entro com o que me restou do dia e na esperança de descansar tranquilo, mesmo que sem a bola, mas com a criança interior feliz por mais um fim de jogo.
Texto do menino Lucas, prodígio de Francisco Morato e que sonha em ser correspondente internacional no país São Paulo HAHAHAHA. Zuera, ele será um jornalista mais bem sucedido que eu, e já mostra nesta singela crônica que eu ainda estou engatinhado na arte de escrever hehe. O perna de pau aí da história kkk dará a periodicidade que este blog nunca teve. Veremos.



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