Viajar é ótimo. E de avião é melhor ainda. A Bahia é um
destino recorrente na minha vida. Mais precisamente Vitória da Conquista, ou
mais precisamente ainda Bela Vista, povoado da zona rural do município de Belo Campo, que fica uns 35km da cidade conquistense. Quase sempre fiz o
trajeto São Paulo/Vitória da Conquista de ônibus. No entanto uma vez, em 2015,
fui de avião com a minha mãe e adorei. Nada de enfrentar quase 24 horas de
estrada, e sim três horinhas de voo. Só que custa caro né bem e não dava para
ter esse luxo em todas as viagens. Contudo em 2019 as cartas sorriram
para mim (literalmente) e para minha mãe e fomos ao aeroporto não para
esperarmos algum parente, e sim para decolarmos.
De 2015 para cá muita coisa mudou. Eu me formei, meus pais
se aposentaram, o Neymar se tornou o melhor jogador do mundo e o São Paulo
voltou a conquistar títulos importantes. Não, pera. Enfim, Conquista conquistou o inconquistável haha. Traduzindo, foi construído um novo
aeroporto na cidade, em um local mais amplo para abrigar aviões de maior porte e
capacidade de voo. Com isso as três horas de viagem passaram a ser menos de
duas horas e as passagens caras continuaram caras, mas apenas se deixarmos para
comprar em cima da hora. Comprando com antecedência e planejamento dá para ir e
voltar pagando o mesmo que uma passagem de ônibus de ida, uns R$ 400. Excelente
não é mesmo?
O Aeroporto Internacional Glauber Rocha, que homenageia um
dos maiores cineastas brasileiros de todos os tempos, e que, vejam só, nasceu
em Conquista, contou até com o presidente da República em sua inauguração ano passado. Eu e
minha mãe não poderíamos deixar de experimentar essa novidade e marcamos
encontro com o menino Glauber para o dia 5 de janeiro de 2020, por volta das
5:30 da manhã, um horário agradabilíssimo.
Minha mãe, ansiosa que é, exigiu que
saíssemos de casa à meia-noite, para dar tempo do ônibus noturno não atrasar
HAHA. Zuera, para irmos de Uber ao aeroporto de Cumbica, ou Guarulhos para quem tem
dúvida (um abraço para todas as pessoas que já se confundiram e perderam vôos
nos dois principais aeroportos paulistas). Antes de 1:00 já estávamos na fila
do guichê da Gol para realizarmos o despacho da oferenda, quer dizer, da mala
da minha mãe kkk.
Se você caro leitor estiver bocejando neste momento e se
perguntando porque perdeu alguns minutos preciosos da sua vida para ler um
monte de nada, te garanto que isso foi como a subida de uma montanha russa,
pois a partir de agora vamos descer e salve-se quem puder. WOOOOOOOW.
Na compra das passagens eu adquiri o despacho de bagagem
apenas para minha mãe, já que ela ficaria quase um mês na casa da mainha dela
kkk e eu, de estadia de onze dias, não precisaria mais que uma mala de dez
quilos. Portanto levaria a minha bagagem na parte de cima do avião, junto com os passageiros.
Chegando no guichê a senhorita Jéssica nos atendeu cordialmente e vendo o bom
humor e estado de espírito meu e da minha mãe, passou a conversar conosco além
de fazer seu trabalho.
Digo a ela que só a mala da minha mãe será despachada,
porém na conferência do documento da minha mãe ela diz que eu também posso
despachar uma mala, sendo que ela nem viu o meu documento. Ué? Como ela sabia
disso? Pensando que no pacote que comprei em um site de um outro site indicado
por uma pessoa boa tivesse no "Li e aceito tudo o que tá escrito aí
taóquei" alguma parte que ganhava uma bagagem gratuita, dei sequência ao
"check-in presencial", já que tinha feito o "check-in
ausente" haha em casa um dia antes.
Minha mala pesou 11kg e o da minha mãe 19kg. Para bagagens
na parte de cima do avião, o máximo permitido é 10kg, ou seja, em tese eu teria que despachá-la no bagageiro da parte inferior da aeronave, no último "bloqueio" até o avião. Mas é de conhecimento geral que há
uma enorme vista grossa nesse sentido e muita gente levou bagagens do tamanho
da mala da minha mãe na parte de cima. Porém eu celebrei, pois como sou um sujeito muito
sortudo, seria capaz de eu não viajar por ter um quilo a mais na mala.
Antes de
enviar minha mala ao mundo secreto das malas, que é retratado no Toy Story 3,
travei o zíper com senha que só a Polícia Federal poderia abrir (porque sou
patrão pai kkk) e nisto Jéssica entiquetou a mala da minha mãe. Após entiquetou
a minha, mas não sem antes achar estranho os números dispares dos pesos e das
malas. Ela corrigiu e nos despedimos das nossas bagagens enquanto elas iam pela
esteira.
Momentos antes de encerrar esta parte burocrática, notei que na passagem emitida para mim, uma espécie de ingresso de embarque, o nome do passageiro era GEOVÁ SILVA e não JESUS CRISTO huahuahua, quer dizer, Mateus Rodrigues.
Chamo atenção do equívoco à Jéssica e ela questionou se não éramos mãe e filho. Respondemos que sim, mas que no momento do check-in em casa não consegui
reservar dois lugares juntos. Ela disse que não tinha problema e que faria uma
notificação no sistema avisando sobre a troca de nomes.
Já em frente ao portão 201, faltando uma hora e meia para o
início do embarque e quase duas para decolar, tirei fotos para recordação,
muito mais para a minha mãe no caso. Fazia piadas de quando iria chegar o
ônibus que ela viajaria ou que eu era a estrela do voo com a minha jaqueta
lindíssima da seleção nigeriana de futebol. Nessa hora observo que em todas as
nossas viagens NUNCA teve um problema sério, sempre deu tudo certo e ela
concordou. Só esqueceu de uma viagem de volta da Bahia para São Paulo que ela fez com o meu
pai em que o ônibus foi parado duas vezes no caminho e somente meu pai, em meio
a 45 passageiros, foi revistado HAHA. Viu, minha (falta de) sorte é de família.
 |
| Eu e minha mãe antes de embarcarmos. É uma imagem para ilustrar o conto, não para mostrar algo importante kkk. Detalhe para a mulher do canto superior direito que quando viu a selfie virou o rosto imediatamente haha. |
Também observei que o número de localizador e a poltrona do
bilhete de embarque da minha mãe eram diferentes das que eu reservei e daí veio
a resposta para o "engano" da Jéssica. Minha mãe se chama Maria Lemos
da Silva. Então na passagem está Maria Silva. Convenhamos que este nome é tão
comum quanto panetone no Natal ou "ibagens" de alagamento em janeiro
na grande São Paulo. Logo, havia outra Maria Silva entre os passageiros e ao
lado dela uma testemunha, ops, Geová Silva, que, por ilação, Jéssica pensou que
fosse eu. Nesta confusão eu fui premiado com uma bagagem, já que o Geová pagou e eu não hehe. Falei tudo isso que disse acima para a minha mãe e chegamos a
conclusão que teríamos que avisar a funcionária da Gol que faz o "cara
crachá" antes da entrada no avião.
Às 2:40, cinco minutos antes do horário marcado, é iniciado
o embarque. Pisquei e uma fila quilométrica já havia sido formada. Não ligava,
pois estávamos sem bagagem, não teria por que me preocupar em não achar vaga
para elas acima das nossas poltronas (quem viaja sabe que pode rolar de você estar
na fileira 5 e a mala na fileira 25). "Bom dia. Há algum problema da
passagem da minha mãe ser diferente do locali..." "Não". Ok, mas queria ter terminado de falar pelos menos kkk. Eu estava na
poltrona 27A e minha mãe na 28E. Próximos né, mas na verdade minha mãe deveria estar na 19D.
Devidamente acomodados e com o avião cheio, é realizada a "chamada
dos ausentes". Se um ausente estiver embarcado é porque algo de errado não
está certo. Dentre os cinco nomes adivinha quais estavam? Sim, Caim e Abel
haha. Não, Maria Silva e Geová Silva (que estava escrito assim mesmo na passagem, o com J é para quem crê na palavra huahua). Olho para minha mãe e ela me pergunta se
devemos falar algo. Digo que não, pois, vejam só, não somos testemunhas.
Pouco antes das 3:30 decolamos e só me preocupava em tentar
dormir. Cochilei um pouco menos de uma hora e acordei exatamente na hora do
lanche hehe. Comi um bolinho com suco de laranja e tentei voltar ao sono. Entre
pensamentos e piscadas longas eis que chegamos ao destino vitorioso kkk às 5:10. Após uns dez minutos de rolamento huahuahua ou taxiamento na pista,
descemos do avião com a minha mãe impressionadíssima pelo tempo da viagem, pois
"nem deu para fazer nada e já chegamos, só tomei água e nem comi o
bolinho".
Fomos para a esteira das malas e já de cara vi que não pensaram
nos passageiros, deixando um espaço minúsculo para as pessoas se engalfinharem
pelas bagagens. Minha mãe, iludida pensando que meu tio já estava lá para nos
levar para a zona rural, queria pegar as nossas malas de qualquer jeito e
avançou em uma tal como uma águia ataca sua presa na água, mas não era a mala
dela. Foi tipo confundir uma melancia com uma ameixa. Com vergonha do ocorrido,
ela me deixou para tarefa e ficou mais atrás esperando.
Vi minha mala e, bem posicionado, a peguei sem problemas. O
tempo passava, as malas passavam e nada da mala verde da minha mãe. De repente
minha mala apareceu novamente na esteira. Oxiii? Olho para trás e percebo uma
etiqueta "prioritário" na mala que minha mãe tomava conta. Eu não sou
prioridade nem para os meus crushs, o que dirá em malas hehe. Vou até ela e noto
que o dono da mala que eu estava também vê algo errado. Corro até ele e minha mãe
foi olhar a esteira. Sim, o cara tinha uma mala absolutamente idêntica a minha,
mesma cor, modelo e marca, a diferença era apenas a etiqueta de prioritário na
mala dele e o nome Maria Silva na minha. Oi? Mas essa é a minha mala, não a da minha mãe. Mermão, era o prenúncio do caos.
Tal como uma cena de um drama francês da década de 60,
as pessoas saíram de cena, as malas acabaram, a esteira parou de rodar e onde estava a
mala da minha mãe? Meu mundo não caiu, mas minha mãe cairia se eu não a
segurasse. Desespero é um eufemismo para a situação da minha mãe após não pegar
a mala dela. "A mala é falsa amor, engole o choro embora eu não vou, agora
vê se aprende a dar valor, que tu se ferrou, ferrou, ferrou", cantarolou Felipe Araújo em algum lugar do mundo tomando uma taça de vinho.
Um segurança
nos orientou irmos ao guichê da Gol enquanto minha mãe tremia e segurava o choro.
Antes de chegarmos ao guichê abordamos um funcionário da Gol, falamos o
ocorrido e ele, quase rispidamente, pediu para esperarmos lá, enquanto ele saia
para ver outro assunto. Nisto percebo uma aglomeração e ânimos exaltados de
passageiros que perderam um voo. VEEESH, só melhora a situação.
Marcelo é o nome do homem que nos pediu para aguardarmos
o atendimento, só que naquele guichê apenas eu estava paciente. Oito
passageiros perderam um voo internacional pois chegaram atrasados e não puderam fazer o
check-in propositalmente segundo eles. E o motivo da fúria era maior pois, dizendo eles, uma nona passageira, que chegou depois de todos, foi atendida
e embarcou (não no mesmo voo que era o deles, mas isso eles não falaram kkk). Minha mãe evidentemente fez questão que todos do aeroporto, não só
da Gol, soubessem da perca da mala. Ou melhor, que dessem conta de recuperá-la.
Até para a humilde faxineira do aeroporto ela apelou.
Depois de um tempo
Marcelo voltou, passou voando (a vá) pelo guichê e adentrou a sala onde só os
funcionários ficam, piorando os ânimos dos presentes. Pouco tempo em seguida, Karine surgiu e
iniciou o protocolo de recuperação da mala conosco. Bom, se caso a mala estivesse em
São Paulo né, até então qualquer hipótese não poderia ser descartada, inclusive
de furto. Não sem antes ouvir um emocionado e raivoso lamento de minha mãe. Eu
sou completamente avesso a "choro", não acho que leva a lugar nenhum,
e só piora o clima, mas o pessoal da Bola na Trave já está acostumado e
solenemente "ignorou" os lamentos.
Fiz o preenchimento do requerimento até o momento em que
pedia para que descrevesse três itens que estavam dentro da mala. Minha mãe
assumiu a posição de fala e afirmou que tinha um cuscuzeiro, uma bolsa cheia de
coisas (ué? kkk) e vários limões "para fazer uma caipirinha". As
pessoas levam roupas na bagagem, minha mãe leva uma "ruma" de limão
HAHAHA. Minha mãe nem bebe e diz que fará caipirinha com os limões. Realmente
ela não estava bem.
Terminado o preenchimento Karine pede o endereço de onde
nós terminaremos a viagem para enviar a mala até lá, só que esse lá "não
existe" hehe. É zona rural, não tem cep, endereço, nada (no entanto moradores
"zueiros" do povoado editaram a Bela Vista no Maps com inúmeras
avenidas de nomes como Lemos, da minha família; Gu e Dennis, meus primos;
Tigre, da família que se apelidou com esse nome; e Cemitério, pois lá tem
muitos acidentes huahuahua). Então ela ofereceu como solução esperarmos em um
hotel com tudo pago pela Gol e a companhia entregaria a mala lá, caso ela
estivesse em Cumbica. Aceitamos as condições e aguardamos a van que nos
levaria.
Pergunto para o segurança que nos ajudou logo após a
constatação do desaparecimento da mala, se seria possível levarem a mala
propositalmente e se havia câmeras de segurança no desembarque. Tinha feito uma
pergunta parecida à Karine e ela disse que não tinha como alguém ter pego a
mala por engano, pois se não sobraria alguma bagagem e isso não ocorreu. Argumento válido se todo mundo
pegasse sua mala, mas alguém muito bem pode pegar sem o real dono notar e era
nisso que pensava, se no momento que eu fiz a troca da minha mala, minha mãe
não viu e alguém apanhou a mala verde. O segurança afirmou que há
"espíritos de porco" e que sim, era possível alguém levar a mala.
Citou até um exemplo recente de uma mãe que pegou a mala de uma noiva por engano e a
devolveu muitas horas depois.
Ter mala extraviada é "normal". Enquanto
esperávamos Marcelo retornar, três dos oito passageiros em busca do voo perdido
também tiveram malas extraviadas e disseram que elas foram recuperadas. O
cidadão que tem a mala igual a minha abordou dona Iu (é o meu apelido para
minha mãe e uma ótima substituição de pronome) no saguão do aeroporto dizendo
que isso aconteceu com ele certa vez e a empresa aérea foi entregar a mala na
casa dele em Belo Campo. Mas Belo Campo existe, por mais que o nome da cidade
não apareça no Google Maps huahuahua.
"Mala igual" kkk disse ainda
que se caso a Gol perdesse a bagagem pagaria uma multa no valor de R$ 3500. Cê
acha que para minha mãe tinha preço uma mala com incontáveis limões? Huahuahua.
Claro que não. E é não é que vi o "Mala igual" em Belo Campo dias depois? Pensei
em abordá-lo e dizer que minha mãe "perdeu" R$ 3500, mas deixei passar hehe.
Dona Iu, mesmo após estar mais "calma" pelos
remédios tomados, ainda estava inquieta, duvidando que a mala apareceria e que
sequer sairíamos do aeroporto para o hotel. Ao mesmo tempo meu tio Zé fez a
parte dele e chegou para nos buscar. Por estarmos ao lado de dentro do saguão
ele não nos viu, houve um pequeno desencontro e minha mãe me encarregou de
achar meu tio. Enquanto isso o pau comeu entre os funcionários da Gol, os oito
passageiros e guardas das polícias civil e militar que surgiram para separar a
briga. Eu infelizmente não vi nada disso, já que estava caçando meu tio ao lado
de fora do saguão.
Após passar um tempo na fina neblina conquistense, avistei
meu tio ao longe, que tinha parado o carro distante do estacionamento para não
pagá-lo. No breve encontro expliquei rapidamente que não voltaríamos com ele
pois a mala resolveu ficar em São Paulo e pegaria um voo mais tarde, caso lá ela
estivesse. Ao mesmo tempo a van dos funcionários da Gol também chegou e Karine
conversava com a minha mãe ao lado de fora dissertando a tese do extravio da mala
que eu já tinha concluído depois de colocar as ideias no lugar.
Explico. Lá no
início da viagem as malas foram embarcadas APÓS eu perceber o equívoco da
Jéssica com os nomes. Logo as bagagens estavam com as etiquetas de Maria Silva
e Geová Silva. Se o Geová Silva não embarcou, não estava presente no avião para
responder a lista de ausentes, para que a mala deveria viajar? Com isso mais um
erro foi elucidado. Minha mala não foi extraviada por mais uma desatenção da
Jéssica, que colocou a etiqueta da bagagem da minha mãe na minha mala. Uma mala de 11kg com
uma etiqueta de 19kg e vice-versa. Bom, menos mal que a mala estava em
segurança e reencontraria a dona.
Houve um pequeno impasse do que seria feito até a mala
chegar. Tio Zé disse que a estrada estava ruim. Sim, chovia naqueles dias e um
dia antes de chegarmos caiu um bom pé d'água, e irmão, lá é roça tio, não é
asfalto bonitinho ou piso de pedra, é terrão mesmo, em que a lama canta no The
Voice dos pneus. Feita essa pontuação, ele preferia que fôssemos ao sítio e
17:00 estivéssemos no aeroporto, horário previsto da chegada da mala. "Mas e se não der para voltar?"
minha mãe hesitou. Melhor ir para o hotel. Karine pediu então para meu tio
esperar na cidade enquanto a mala não chegava. Meu tio respondeu que não, que
tinha que voltar para comer umbu (uma fruta típica da região, prima distante do
kiwi) hahaha.
Não satisfeita, neste momento minha mãe sacou o bolinho que não
comeu da bolsa e deu para meu tio para ele ficar deboas HAHAHA. Minha mãe encerra
as discussões dando comida para as pessoas kkkk. Pegamos a van junto com os
funcionários da Gol para o hotel, meu tio pegou o bolinho e voltou para a roça
(em casa minha vó confiscou o bolinho e não deixou ninguém relar a não ser ela.
Infelizmente no momento ela ingere mais açúcar do que toma água).
Durante o trajeto da van para o hotel ouvirmos as queixas e as ironias dos funcionários da
Bola na Trave sobre o ocorrido com os oito passageiros. Os oito embarcariam em um voo internacional e neste caso o check-in se encerra no mínimo com 30 minutos antes do avião decolar, não como os nacionais que se o avião estiver com a turbina a todo combustível ainda dá para embarcar haha. Eles chegaram após os 30 minutos e aí game over para todos. Chegamos no hotel
Shalako, nome de cantor árabe de pouco sucesso ou de algum chocolate em Israel kkk. Enfim, esquecemos a
falta de uma boa noite de sono e fomos eu e minha mãe "matar ou
morrer" no café da manhã. Comemos o suficiente para suportar uma caminhada
no deserto por 30 dias, porque 40 apenas Geová, quer dizer, Jesus.
O
"estoque de energia" tinha um motivo, como não achávamos que o almoço
não estaria na nossa conta, na da Gol na verdade, locupletamos a ponto de não
precisar ter que almoçar. Tristeza definiu o sentimento meu e da minha mãe
quando soubemos que tínhamos 40 conto cada para gastar com almoço que a Gol pagava. Não queria ver comida na minha frente e ainda teria que almoçar, porque eu não tinha escolha de não almoçar, é na faixa irmão, só vai.
Por volta das 9:00 estávamos no quarto e nos restava
esperar. Minha mãe seguia inquieta, porém bem menos nervosa, acalmada pelas
minhas palhaçadas. E eu estava mais paciente que tartaruga esperando para atravessar o
cruzamento da avenida Paulista com a rua da Consolação. Como a fome foi embora,
decidi esperá-la até às 14:00 para almoçar. Meio-dia dona Iu já pedia comida,
mas como não queria comer sozinha, me esperou muito contrariada. Próximo ao
horário que estabeleci a completa revelia da minha mãe, o almoço foi servido e
Geová definitivamente ficou para trás no deserto.
Num momento de abstinência da mala, minha mãe
quis conferir se guardou as sementes de melancia na bolsa de mão. Até aí, nada
demais. A questão é onde ela guardou. Junto com os remédios naquela espécie de
"separador de comprimidos". "Ainda bem que na hora do nervoso
tomei os remédios certos e não a sementes de melancia" ponderou minha mãe. Mano, HUAHUAHUA.
Só comédia. Porém a história perderia a graça.
Nos acomete a boa ideia de voltarmos ao aeroporto ao invés
de esperar a mala no hotel. Só que não tinha como avisar ninguém da Gol. Não
havia nenhum telefone de contato no formulário de recuperação de bagagem e nem
passou pela nossa cabeça pegar o telefone da Karine ou do Marcelo. Pesquiso na
internet e nada de concreto. Fui a recepção e o Buzz Lightyear (nome fictício,
foi só para dar uma quebrada no texto mesmo hehe) também não encontrou nenhum
telefone que nos atenda, mas tinha algo a oferecer. Mariana, amiga dele,
trabalha na Gol e poderia nos ajudar na questão.
Volto ao quarto e aguardo.
Enquanto isso, por um site que acompanha vôos no mundo em tempo real (muito
útil por sinal), relato a minha mãe que a mala desceu em solo baiano antes das
16:45. Pouco após, Buzz nos informou que a Mariana já sabia do caso e que ela
própria nos entregaria a mala, que chegou em segurança. Ela mora no hotel e por isso faria a diligência kkk. Euforia Brasil, e eu e
minha mãe até nos abraçamos. O fim estava próximo. Ou não.
Imaginamos que um carro viria expressamente nos entregar a
mala e vislumbrávamos até uma carona para encontrarmos nosso tio em frente a
rodoviária da cidade e de lá seguirmos viagem. Meu tio Zé, que teve o bolinho
surrupiado pela própria sogra, retornou para nos resgatar pela segunda vez, agora acompanhada da esposa, irmã da minha mãe, minha tia, mãe dos meus
primos, filha da minha vó....
Pedimos para ambos não irem até o hotel,
justamente porque seria rápido este processo de vinda da mala e nosso retorno.
Como nós estávamos mais distantes do que eles e obrigatoriamente passaríamos
pela rodoviária para voltar para casa (a cidade é cortada pela BR-116,
principal via para qualquer lugar, inclusive para a roça) melhor nos esperarem
lá.
17:30 nada. 18:00 idem. Houve uma troca de funcionários,
saiu o Buzz e seu parceiro Woody (haha fictício também) para a entrada de Lilo
e Stitch huahuahua. Disney/Pixar em peso no hotel. Já tínhamos encerrado a
estadia crentes que a bagagem estava próxima e tivemos que esperar na recepção.
Minha mãe questionou Lilo pela demora e ela nos explicou que provavelmente a
mala estava vindo na van dos funcionários, a mesma que nos trouxe. Nesse
momento o humor da minha mãe, que já não estava bom, foi da água para o vinho e
nem Geová, ou melhor, Jesus seria capaz de reverter. A Mariana não respondia
mais o WhatsApp e a paciência da minha mãe estava no nível do pré-sal. Saio à
garagem, ligo para a Gol (call center) e espero em vão. Uma perca de tempo já sabida antes de
discar o número, mas era melhor do que ficar dentro da recepção, olhando minha
mãe definhar de raiva e nervoso.
18:30 mais nada e 19:00 mais idem. Aí amigo, se riscasse um
fósforo perto da minha mãe pegava fogo. Para completar, Lilo acrescentou a
sutil informação de que a van deixaria cada funcionário em sua casa e que o
destino final seria o hotel. Mermão, tu não fala uma coisa dessas para alguém
impaciente. Minha mãe tratou de ligar para todo mundo que podia e contar o
completo descaso da Gol. Eu, obrigado pela minha mãe, peço o telefone da
Mariana à Stitch, mas vejo que o WhatsApp Web está aberto na conversa dela e eu mesmo salvo o
número no celular. Folgado? Talvez, mas não vi nada demais a vista do que
estava acontecendo conosco. Todavia a minha atitude rendeu uma senhora bronca
da Lilo em Stitch hahaha. Malz cara. Eu ligava e não atendia, outra hora sequer
chamava. Onde está a mala? Mariana deveria estar vindo do aeroporto a pé com
ela, já que tinha rodinhas kkk.
19:30 e minha mãe ameaçava chamar a polícia HAHA. Meu pai
me enviou uma mensagem perguntando como tinha sido a recepção na casa da minha vó e eu nem
tinha condições de responder. 19:45, aproximadamente três horas após a mala
estar na cidade, ela reencontrou a dona, mas isso ficou em segundo plano.
Quando a van chegou no hotel disse apenas para a minha mãe não bater em ninguém
huahuahua. Mariana, que tinha um sorriso no rosto, imaginando a felicidade da
passageira ao rever sua bagagem recuperada, teve o semblante mudado de súbito
pela agressividade da minha mãe que cobrava tudo e mais um pouco dela e da
empresa na qual ela tinha a infelicidade de trabalhar naquele momento.
Para
piorar, Mariana disse que não poderia nos levar até a rodoviária e que a van
faria outro trabalho, não mais para a Gol. O motorista da van vendo que a cobra já estava fumando
charuto, tratou de dizer que já estava atrasado e saiu do hotel o mais rápido que pode.
Minha mãe desabou em choro e não respondia mais nada. Eu assumi o restante das
tratativas, sem nenhum clima no hotel e entre as pessoas envolvidas. Assinei um
papel, mais amassado que jornal de feira, confirmando a devolução da mala e
Mariana sugeriu que pedíssemos um Uber até a rodoviária, registrássemos o
ocorrido à Bola na Trave que eles me fariam o ressarcimento do valor da
corrida. Minha mãe ficou indignada com essa solução, mas era a menos pior de
ruim depois de tudo que ocorreu.
O carro chegou e minha mãe não se despediu de ninguém, algo
raríssimo. Eu não me recordo de uma outra vez em toda a minha vida, ela sempre
se despede, até de caixa eletrônico kkk. Eu apenas falei com Stitch, e pensei
em pedir desculpas pela bronca, mas acredito que ele aprendeu e ninguém teve
culpa de nada, ele só quis me ajudar. Durante o trajeto o motorista do Uber
falou que o aeroporto tem mais reclamações que operadora de telefonia e que o
"bom" atendimento é padrão. Mais lenha para minha mãe queimar a Gol
com todo mundo que ela conhece haha.
Na troca dos carros, ver minha mãe abraçar
minha tia Naide aos risos foi um alento deste dia que começou alegre pela
viagem e terminava pesaroso com tamanho estresse passado. Quase que totalmente pela minha mãe
diga-se. Eu tive momentos bem ruins, como a confirmação da ausência da mala e a
entrega da mesma no hotel, mas ainda assim não perdi as estribeiras com nada.
Ainda bem. Um pavio curto ao lado da minha mãe e era capaz de interceptarem o
avião ainda no ar para pegar a mala HAHA.
Secretamente torci para que a estrada tivesse um atoleiro e
que o carro não passasse para a história ficar ainda melhor huahuahua. Sádico?
Talvez, mas nem ligo, o importante é o teor do conto haha. Porém, para a
felicidade de todos, a estrada mesmo ruim ainda nos deixou passar e à chegada
ao sítio foi uma mistura de alívio, reclamações e deboche, como o da minha outra
tia, a Glória, no dia seguinte, que a primeira coisa que disse quando nos viu foi
"quem mandou viajar de avião?" hahaha. Minha mãe no auge do drama
contava para quem quisesse ouvir que "em 31 anos viajando de ônibus isso
nunca tinha acontecido (perca de malas)". Engraçado que nessas horas tudo
o que é ruim fica bom, como os mais de 70 dias somados na estrada que ela viveu nessas viagens.
Não pedi ressarcimento à Gol. O custo do Uber não fará
falta se pensar no desgaste que seria recuperar esse dinheiro. Eu retornei para
São Paulo antes da minha mãe (eu voltei dia 16/01 e ela voltará dia 03/02) e a
viagem não teve problemas. Minha mala foi despachada pelo excesso de
passageiros e quem estava lá para auxiliar neste processo? Mariana, a assustada
hahaha. Acho que ela não me viu e não lembrou quem eu era quando leu meu nome no localizador para trocar minha passagem e poltrona dentro do avião. Talvez se fosse Geová...
Na capital
paulista, um passageiro pegou a minha mala antes que eu, mas notou que não era
a dele e a devolveu para a esteira. Acho que se eu colocar neon verde irá
diferenciar a minha mala de uma vez por todas kkk. Decidi postar a história
antes da minha mãe voltar para não perder o fio, já que ela foi bastante
tricotada diga-se haha. Todavia se dessa vez a mala ficar na Bahia, é capaz de a minha mãe ir em definitivo para lá e nunca mais voltar à São Paulo. Se tiver uma Maria Silva
entre os passageiros então, voltará voando para o sítio
kkk. Que Geová nos proteja e entre no avião da próxima vez haha.