sábado, 23 de dezembro de 2017

Oportunidade


Renato Gaúcho, treinador do Grêmio e grande personagem do futebol brasileiro, disse na véspera do primeiro jogo da final da Libertadores contra o Lanús que “o mundo é dos espertos”, sobre o episódio do uso de um drone que espionou vários treinos de adversários tricolores durante o ano. Posteriormente ele disse que se expressou mal (provavelmente pela rejeição pública ao que foi dito) e disse que “o mundo é dos inteligentes”. Há uma sutil diferença nas duas frases, com a palavra inteligente sendo melhor aceita do que esperto, que tem conotação mais negativa e ainda mais em um país que diariamente joga na cara a quantidade de gente esperta que está no controle das decisões e das verbas públicas. Pois bem, eu não concordo, mas também não discordo dele. Apenas tenho uma visão diferente. De que o mundo não é nem dos espertos e nem dos inteligentes e sim dos que aproveitam as oportunidades.

Esse ano foi repleto de oportunidades para mim, muitas das quais jamais vou esquecer, como a que vou contar a partir do próximo parágrafo. No entanto, a oportunidade nada é se você a deixa passar. Meu aproveitamento com as oportunidades até esse ano era como se eu estivesse na área de desembarque do aeroporto esperando a minha mala na esteira, vejo todos os outros passageiros pegarem suas bagagens e a última mala que sobrou eu ainda ter dúvidas se era a minha. Em 2017 eu estive um pouco mais atento e não fui o último a retirar os meus pertences hehe.

Primeiro dia de dezembro, sexta-feira, estava eu triste por questões particulares, quando meu chefe Tercio (ele voltou para o Paraná esse mês, sua terra natal, mas foi um dos principais nomes da minha temporada hahaha sdds) perguntou se eu poderia cobrir a volta olímpica do Santos FUT7 na Vila Belmiro no domingo. Ora, eu sou santista, seria excelente, uma baita OPORTUNIDADE. Eu estava tão na bad que quase declinei o convite. Mas, aceitei e mal sabia que estava prestes a viver o melhor FDS da minha vida em termos de eventos.

Terceiro dia de dezembro, domingo, estava incrédulo com o que aconteceu de sexta para sábado, mas ao mesmo tempo feliz por viver aquilo e ter aproveitado a OPORTUNIDADE (e depois contar o que houve tomando suco de uva ao lado de uma pessoa muito boa huahuahua). Fui informado que os atletas do Santos FUT7 sairiam às 14:00 da Engemon (empresa com obras e projetos de engenharia elétrica e civil, assim descrito no site deles). Santos FUT7, Engemon, o que são isso? Antes, tenho que explicar o que é FUT7. 

FUT7 nada mais é que aquele futebol society maroto, jogado em grama sintética, que ganhou esse nome para ficar mais comercial, “vendável” e profissional. FUT7 é igual a Futebol de 7, pois o time tem que ser composto por 1 goleiro e 6 jogadores na linha. A Engemon há algum tempo banca um time de FUT7, antes mesmo dele ter esse nome. Para participar da Liga F7 Brasil e da Liga F7 Paulista (de quê? sim de FUT7, continue atento kkk), eles teriam que ter “camisa”, não bastava entrar como Engemon, teria que ser como uma “subsidiária” de um clube de futebol existente. Aí é que entra o Santos na história, que cedeu o nome e literalmente a camisa para a empresa montar um ótimo time e ser campeão de todos os torneios possíveis organizados pela Liga F7 nos últimos dois anos. O Santos gentilmente, como forma de agradecimento ao desempenho da equipe (que teve alguns dos títulos exibidos no SporTV e no Esporte Interativo), convidou os atletas a darem uma volta olímpica durante o intervalo do último jogo da temporada contra o Avaí na Vila Belmiro. Tá Mateus, e o que você tem a ver com esse FUT7, você não trabalha no Nacional? Sim, “trabalho” hahaha, no entanto a Arena Nacional, principal local da disputa dos jogos da Liga F7 Brasil, fica “nos fundos” do Nacional e o meu chefe Tercio era o responsável pela comunicação da Liga F7. Ele mesmo dizia que estava “99% na Arena e 1% no Nacional” e por isso estou em ambos. Pronto, agora dá para voltar ao conto hehe.

Fui pesquisar o endereço da empresa e descubro que é na minha quebrada kkk. Era só virar a rua e ir direto até chegar ao local. Claro que tinha que fazer uma caminhada né, mas para mim que nem gosto disso hahaha, era mais um motivo para o dia ser bom. Chego lá minutos antes das 14:00, horário combinado com o Magó, treinador do Santos FUT7. Toco a campainha da empresa e um rapaz vem me atender. Pergunto sobre o Magó e ele diz que ainda não havia chegado, mas que tinham alguns jogadores num bar na esquina e que talvez soubessem mais informações. Agradeço e vou até esse bar. Lá estavam dois jogadores que estavam calmamente comendo uma carne de sol com alguns petiscos e tomando cerveja. Pensei, “acho que vai atrasar um pouco né” kkk. Pergunto sobre o Magó a eles, que me respondem que ele deve estar vindo. Eles também dizem que vamos em dois carros de lá da Engemon e que pegaríamos um jogador no caminho. Me oferecem cerveja, mas eu recuso, pois eu não bebo (hehehehe).

14:20, 14:40, 14:50 e nada do Magó. Nesse interím chegaram mais três jogadores e eles ficaram conversando sobre um torneio que tinham jogado naquele dia de manhã. Um pouco antes das 15:00 o Magó finalmente chega e já foi logo pedindo o cardápio para ver o que tinha para comer. Disse que não tinha se alimentado depois do jogo e estava morrendo de fome. Sim, ele também estava nesse torneio no qual parte do time da Engemon, não representando o Santos, perdeu a final nos pênaltis. Magó pede duas porções de pastéis, mas se arrepende pois estávamos atrasados. Como a culpa não era minha, estava só observando. Chegam os pastéis e dessa vez não recuso o convite para comê-los, pois não tinha almoçado kkkk. Enfim, depois de muita enrolação, saímos da Engemon por volta das 15:30, mas confiantes que chegaríamos ainda no comecinho da partida, que teria início às 17:00. Ledo engano.

Eu viajava no carro do Magó, junto com o craque do time e camisa 10 Zoio, o suplente Nenê, que dirigia o veículo, além claro do treinador. O restante ia no segundo carro de um jogador que infelizmente esqueci o nome hahaha. Tínhamos que pegar um atleta um pouco antes da rodovia Anchieta e de lá descer a serra até Santos. Essa primeira parte foi tranquila de certa forma. Nenê contava suas histórias de motorista ali na região do Jabaquara, enquanto Magó se preocupava com o GPS que não parava de aumentar o tempo previsto da viagem. Resgatamos o cara e fomos encarar a Anchieta. Logo no início começou a fazer frio e a neblina tomou conta. Resultado? Trânsito. Mas não era trânsito de muitos carros, era trânsito de ficar parado devido a falta de visibilidade. Magó começou a temer por nós e pela volta olímpica, pois se nós não chegássemos, nem taça teria para mostrar, já que elas estavam no nosso carro. O GPS marcava o tempo previsto de até 17:50, sendo que nessa hora já deveríamos estar dentro de campo, começando a celebração. Nenê tentava descontrair o comandante, mas era em vão. Alberto (falarei dele mais à frente) e o presidente da Engemon ligavam para saber onde estávamos e ele respondia que daqui a pouco estaríamos lá, mas era mentira. Ficamos parados por 15 minutos depois do pedágio e demos a sorte de descer no comboio que estávamos. Olhávamos para trás e não tinha nenhum carro. Se atraso lá no início fosse maior, com certeza não daria tempo. Com muito custo descemos as ladeiras de Santos e faltando 15 minutos para às 18:00 (era para estarmos lá antes das 17:00) chegamos perto do estádio. Perto. E a partir de agora começa a saga hahaha.

A principal rua de acesso ao estádio estava fechada, então o Magó pediu para parar o carro no meio da rua ao lado e corremos para pegar as camisas e as taças. Os outros jogadores do segundo carro também chegaram e começaram a experimentar as camisetas. Magó pegou uma que ficou apertada e a descartou. A princípio eu não pegaria nenhuma, porque afinal de contas estava lá para fazer uma matéria sobre a volta olímpica, não para usar uma camisa do Santos. Mas algo me fez pegar essa camisa e usar. Ficou ótima. Peguei uma das três taças que seriam erguidas na comemoração e comecei a correr em direção ao estádio. Atrás de mim os jogadores se motivaram e começaram a andar mais rápido. Até o portão 17 da Vila Belmiro, passamos por vários torcedores que gritavam "é campeão" e faziam gracinhas. Um quis me interromper para tirar uma selfie, mas nem dei bola. Em frente ao portão já nos aguardava alguns jogadores e a turma do dono da Engemon (ele, a esposa, duas filhas, uma babá e dois homens). Nos cumprimentamos e logo em seguida veio uma “mestra de cerimônias” do Santos dizendo que tínhamos que entrar no campo imediatamente. Alberto aparece para nos dar cobertura, enquanto o restante do grupo que tinha chegado no horário e tinha assistido o primeiro tempo na arquibancada aparecia para pegar as camisas. Sou revistado em segundos e vou na frente acompanhando a funcionária do Santos. No caminho passaríamos pela quadra dentro da Vila e sairíamos no portão da ambulância, no escanteio abaixo da torcida visitante. Magó não me segue e vai parar no banheiro kkkk. O resgato e voltamos para o caminho correto. Chegamos todos ao portão e as cheerleaders já estão entrando no gramado. Somos informados que não poderia usar o celular para tirar fotos. Metade do meu trabalho seria tirar fotos com o meu celular. E agora? A funcionária pede para andarmos logo e iniciarmos a volta olímpica. Bom, eu estava dentro de campo, com a mesma camisa dos jogadores do FUT7, não iria tirar foto, ficaria ao lado de fora observando parado? Não. A OPORTUNIDADE era boa demais para não aproveitar. Participei da volta olímpica.

Andávamos acenando para a torcida, e eles nos retribuíam aplaudindo de pé. Eu só pensava em como fui parar ali. Acenei para o presidente Modesto Roma Jr. e ele me correspondeu. Cara que demais. Comentei com um dos jogadores que os torcedores nem faziam ideia de quem nós éramos (como se eu fosse jogador kkkk). Posamos para fotos, e continuamos a volta. Ficava mais empolgado a cada passo. Começaram os gritos de “é campeão!” dentro do estádio e eu beijava a camisa vibrando e comemorando títulos que eu sequer tinha visto hahahaha. Gritos de “vai gordão” começaram a ser entoados também em alusão a um cara um pouco acima do peso que estava no grupo. Até a torcida do Avaí aplaudiu a gente. Como diria uma pessoa boa eu conheço, foi sensa. Quando vi, a volta tinha terminado e um dos jogadores estava suplicando para o fiscal da Federação Paulista deixar tirar uma foto. Ele “deixou” e lá fui eu fazer o que deveria ter feito durante todo o campo. A foto foi importantíssima, pois foi ela que ilustrou a minha matéria. Em tempo, precisa de autorização para tirar fotos dentro de campo e ninguém tinha naquela hora.

Da esquerda para a direita, em pé: Mano do Boné Vermelho, Mano de Óculos Azuis, Não Sei, I Don't Know, Nerd Player, Eu e Vai Gordão. Agachados: Amigo do Dono, Emerson Palmieri, Alan Ruschel, Belutti (parceiro do Marcos na dupla sertaneja), Magó, Zoio, Cris, Alberto, Eduardo Costa (cantor) Bronzeado e Calvin Cap.
Slk, quem diz que eu não sou um atleta? HAHAHA. Meu pai fala que esse foi meu terceiro grande feito na vida, dar uma volta olímpica sem jogar. As outras são ganhar o prêmio de melhor goleiro na escolinha sem pegar no gol (eu fui goleiro em alguns jogos sim, mas foram poucos, insuficiente para merecer o prêmio ao meu ver hahaha) e ser campeão de dança na escola sem dançar (isso é uma calúnia, eu dancei sim, está documentado em vídeo, minha sala foi muito bem e eu também fui modéstia à parte kkkk).

Entrando por onde tínhamos saído, o momento feliz foi bruscamente interrompido com uma chamada que o Marco Alberto, presidente da Engemon estava dando em Magó, dizendo que a parceria tinha acabado e que ele (Magó) era um irresponsável. Aí me toquei que durante toda a volta olímpica ele não estava com a gente e nem sua esposa, suas filhas e a babá. O fiscal barrou a entrada das crianças e o Marco ficou puto. Ele foi embora com a sua família do estádio e nem ficou para assistir ao segundo tempo. Magó e Alberto conversam na entrada da quadra. Percebo que é sobre o que tinha acabado de acontecer, mas fico de longe, observando as cheerleaders hehehe. Quando acho adequado, vou ao encontro dos dois e o assunto já era outro. Cumprimento Alberto e pergunto sobre as fotos que tiraram de nós dentro de campo (as fotos acima). Ele disse que ia passar para o Magó e para o Tércio e que eu pudesse ficar tranquilo sobre isso. A pergunta fez ele questionar Magó sobre a quantas anda o Nacional. Eles seguem o papo e eu só ouço sem participar. Depois de um tempo Alberto se despede, diz que tem que fazer “sala” para uns convidados que estavam no estádio. Magó e Cris, capitão do Santos FUT7, decidem não ficar para assistir ao jogo. Eu estava saindo com eles também, em sinal de solidariedade, mas Magó pede para eu ficar e então eu subo para o setor dos sócios, nas cadeiras descobertas e acompanho o restante do segundo tempo.

Todos os personagens desta história estão sendo devidamente descritos por mim para melhor entendimento do conto. Mas tem um que merece um parágrafo só para ele. Alberto. Quem é o sul-mato-grossense Alberto Luiz de Souza? Quando o cumprimentei a primeira coisa que me veio a cabeça foi esse lance.



Sim, estava falando com um campeão brasileiro com o peixe em 2002, um ex-atacante de bom nível e agora um dirigente do futebol que já trabalhou sabe onde? No Nacional. Curioso não? Hahaha. Durante a administração “Alberto” houve uma equipe de comunicação no Nacional e depois foi descontinuada pela atual administração. Uma pena. Pelo o que apurei ele é um cara muito querido pelo pessoal que trabalhou com ele no Nacional e o Alberto fez essa ponte entre a Engemon e o Santos para a parceria no FUT7.

Voltando ao conto, assisti ao segundo tempo torcendo para que o Santos desempatasse o jogo, já imaginando o trecho na minha matéria “a volta olímpica inspira os santistas que vencem o jogo....” Porém só ficou na intenção mesmo hehe, a partida termina em 1x1. O Santos poderia ser vice-campeão com a vitória e o Avaí ficaria na primeira divisão com mais um gol. Não aconteceu nem um, nem outro. Pior para os catarinenses que tiveram um baita espírito desportivo nos aplaudindo (agora falo como atleta do Santos FUT7 também hahahaha), mas vão jogar a Série B ano que vem. Saio do estádio antes do fim do jogo e encontro quase toda a delegação do FUT7 santista num bar em frente ao portão 17. Lá vejo o gordo do “vai gordão” TRABALHANDO. Ué, por que ele está trabalhando e não na resenha? Descubro que ele é um dos donos do bar, que conhecia um dos jogadores do Santos FUT7 e foi entrando com a gente no estádio POR ESTAR COM A MESMA CAMISA QUE NÓS. Ou seja, o presidente da principal patrocinadora do time e dono da porra toda não entra e esse cidadão acima do peso ideal segundo a OMS dá a volta olímpica. E eu achando que estava APROVEITANDO A OPORTUNIDADE. Talvez se não tivesse pego a camisa do Santos não teria nem entrado em campo, pois pode notar na foto, fora o Alberto que trabalha no Santos, todos estão com a mesma camisa. A volta para São Paulo foi no carro do Magó e dessa vez há uma substituição. Sai Nenê e entra Cris. Faço as entrevistas para a minha matéria e todos conversamos sobre futebol até chegar na Engemon. Cris ainda me dá uma carona até a esquina de casa e ali findava o melhor FDS da minha vida em termos técnicos.

Contei essa história para uma jornalista e ela recriminou minha atitude, disse que deveria esperar ao lado de fora do gramado e aguardar até o momento das fotos no canto do escanteio. Não concordo. Não é por que eu não participei dos jogos e não faço parte do grupo que não poderia participar da volta olímpica. Estava ali como jornalista também e se eu pudesse fazer o meu trabalho como gostaria teria feito. Mas poxa, já que eu estava lá, POR QUE NÃO APROVEITAR? Se fosse na Arena Corinthians com o Corinthians FUT7 eu faria a mesma coisa. Agora cabe a mim dar uma volta olímpica de verdade pelo Santos, com merecimento como diria Tite. Não dá mais como jogador, mas quem sabe na comissão técnica? É só a sorte sorrir para mim outra vez que com certeza eu aproveitarei a oportunidade, já que agora eu aprendi como aproveitá-las.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A bandeira e o bicho homem


Por: Lucas Cardoso

O ano era 2008, um sábado dos quais não me recordo à data, estamos eu, meu pai e meu padrinho decididos a acompanhar uma partida de nosso time do coração, nesse caso, o do Parque São Jorge, vulgo Corinthians. Aquele foi um período perturbador para torcedores como nós, já que o timão enfrentava (não com tanta dificuldade assim) o calvário de estar disputando a série B do brasileirão.

Pegamos o carro horas antes de a partida começar, fomos até o Pacaembu, o jogo seria contra o tradicional Criciúma e como quase todos os ingressos estavam esgotados, acabamos adquirindo com um dos cambistas que estava nos arredores.

Após a compra de nossos tickets, adentramos o caldeirão que aos poucos se enchia de corinthianos ávidos pela vitória, que tomavam conta de todo o estádio, enquanto, bem no canto, estavam alguns torcedores do time adversário, meio acanhados. Ficamos no setor amarelo, ou seja, arquibancadas e com a visão diagonal (confesso que achei esse ângulo um tanto ruim, mas beleza) do gramado, que mais parecia um tapete de veludo que reluzia ao sol escaldante das quatro horas da tarde.

No começo tudo ia bem, nos sentamos relativamente no meio e deixamos por estar, porém, ao passar de alguns minutos, percebemos uma movimentação de bandeiras, algumas carregadas por mais de dez pessoas, além de torcedores caracterizados por suas respectivas organizadas, que se aglomeravam próximo de onde estávamos acomodados, decidimos então trocar de lugar e dar espaço aos mais assíduos.

Nesse momento, nos mudamos para o lado oposto de onde estávamos antes e ficamos observando a movimentação, que trazia consigo um ar meio denso, com uma mistura de euforia e tensão, foi aí que, alguns minutos antes do jogo começar uma das bandeiras foi aberta e carregada por todo setor, inclusive por cima de nossas cabeças.

Após algum tempo de partida, que estava empada sem gols, percebemos um alvoroço que vinha do local onde nos encontrávamos anteriormente, a princípio, não endentemos o que estava acontecendo, foi então que nos demos conta de que os torcedores (da mesma organizada, por sinal) trocavam socos e pontapés e só pararam com a chegada da segurança, que, delicadamente, distribuiu cassetetes nos envolvidos até que a confusão acabasse.

Cenas da barbárie que o menino Lucas presenciou no estádio. Lamentável. O futebol perdeu um ilustre torcedor por causa disso kkk. 

Só naquele momento que me dei conta da animosidade que a competição é capaz de despertar no ser humano, que mesmo, teoricamente, sendo companheiros de torcida acabam se deixando levar e entram num combate contra desnecessário e sem sentido.

Além desse despertar de consciência sobre as atitudes em questão, fui acometido por uma epifania que me fez perceber que se eu, meu pai e meu padrinho não tivéssemos saído daquele lugar, provavelmente, sobrariam alguns socos e chutes para nós.

Ao final, o que menos importou foi o resultado da partida, que terminou do mesmo jeito que começou, já que, na verdade, eu que nunca fui, e espero nunca ser, fanático por futebol me dei conta que não importa se você está do mesmo lado, porque quando se trata do bicho homem, o buraco é mais embaixo do que se imagina.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Entre os chinelos e as calçadas




Por: Lucas Cardoso

Era uma tarde comum, por volta de umas quatro horas da tarde, o sol ainda estava brilhando forte, o calor se abatia sobre mim, que, ao som de meus fones de ouvido, subia a ladeira de casa após mais um dia de trabalho. É então que, nesse percurso, já próximo do duzentos e quarenta, número da minha residência, vejo uns garotos na rua, meus vizinhos, no caso, jogando aquele futebol maroto, esbanjando a juventude e energia que a maioria das crianças tem na infância.

Continuei meu caminho lentamente enquanto observava a partida, que ocorria de pés descalços, já que os chinelos demarcavam as traves de ambos os lados, e a bola, um pouco surrada, corria de um lado para o outro, entre as calçadas, com os dois times divididos a mercê da sorte e digladiando a posse da pelota, que, indiferente aos pés que a possuíam, se mantinha obediente e pronta para ser mandada para onde quer que fosse.

Foi ai, ao observar os garotos, que me veio à memória, nem tão vaga ou tão distante, os tempos em que eu e meus amigos jogávamos sob esse mesmo sol e com os pés descalços, no mais acolhedor (e perigoso, eu admito) campo de peladas, que é a rua. Passávamos tardes inteiras correndo atrás da bola, sem nem se preocupar com mais nada, só o que importava era fazer o gol e não perder a pelota, que por vezes, aos chutes mais fortes, corria desembestada ladeira abaixo, enquanto um dos que ficavam de próximo, ou mesmo um dos jogadores, corria desesperadamente em seu encalço.



Na real nunca fui lá muito bom jogador, assim como outros amigos e pelejadores de cada dia, era um verdadeiro perna de pau, mas isso não fazia diferença, o que nós buscávamos era o sabor da diversão despretensiosa e infantil que alimentava nossas férias de verão, o que valia mais que tudo, para nós, entre aquele gol desperdiçado, um tampão do dedo arrancado por um chute errado, às vezes discussões de jogo, era o refrigerante no copo descartável ao fim das partidas, que nos fazia jogadores.

Nunca tive vontade de me tornar um jogador profissional, tanto por falta de habilidade como por falta de vontade, por vezes, acompanhava meu time do coração, o Corinthians, que por herança, quase que divina, de meu pai, foi me passado como fonte de orgulho (ou não, ai depende da fase). Torcia a cada partida que eu assistia, comemorava junto aos fogos de artifício os gols marcados.

Passar pelos garotos, no campo (demarcado com os chinelos) e ver em seus olhos o prazer de estar ali, se divertindo sem se preocupar com o amanhã, me fez ver que estou envelhecendo, não há mais tampões arrancados, gols feitos ou perdidos, nem mais aquela doce e sutil infância, que em meio àquelas peladas, driblava a maturidade e as responsabilidades dos adultos, e que a cada partida se renovava, porque apesar de cada apto final (que ia de acordo com as regras futebolísticas da rua) estaríamos mais uma vez a espera da próxima partida, com os pés descalços e com a vontade de fazer gols.

Agora, que atravessei esse campo, tanto o da rua, onde os garotos jogavam naquele dia, quanto o da infância, chego em casa, abro o portão e entro com o que me restou do dia e na esperança de descansar tranquilo, mesmo que sem a bola, mas com a criança interior feliz por mais um fim de jogo.

Texto do menino Lucas, prodígio de Francisco Morato e que sonha em ser correspondente internacional no país São Paulo HAHAHAHA. Zuera, ele será um jornalista mais bem sucedido que eu, e já mostra nesta singela crônica que eu ainda estou engatinhado na arte de escrever hehe. O perna de pau aí da história kkk dará a periodicidade que este blog nunca teve. Veremos.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

ExtraContent de Eu sou Santista


Eu sou santista. Torço para outros clubes também, mas é mais uma simpatia sabe, por gostar tanto de futebol. Falei no Rumo ao Estrelato 01 da minha identificação com a Bulgária e graças aos jogos de vídeo game e PC também “adotei” o Bordeaux-FRA, o Celta de Vigo-ESP e o Paysandu-PA. Também tenho um carinho especial pelo Napoli-ITA, o Vitória da Conquista-BA e o Crateús-CE, esses por motivos familiares e ao Arsenal-ING por identificação pura mesmo. Tenho a camisa de todos, exceção a do Celta que está chegando. Antigamente gostava do Internacional-RS, tenho camisa também, mas talvez pela payxão do Papão, eu deixei de lado. Mas enfim, eles estão num lugar a parte, o Santos é titular para todo o sempre.

Santista é de pai para filho. Não há estudos que comprovam essa afirmação, é um sentimento mesmo. Os dados que eu tenho é que em nenhuma sala de aula que frequentei, tanto de escola, curso ou faculdade, tivemos mais integrantes do que os três grandes times da cidade. Houve um ano no Miss Browne (8º série se não me engano) que, juntando as três salas dessa série, tinham 4 santistas num universo de 90 alunos. 3,6%. Acho que os indígenas tinham mais representatividade que nós hahaha. E você acha que eu me abalava? Eu achava era bom, era diferente, não seguia tendências ou modinhas. Resistência mesmo hehe. Claro que por ser minoria você é marcado. Lembro que uma vez, no Miss também, numa aula de sábado (reposição de aula e até que tinha ido bastante gente, acho que valia algo para nota no bimestre), um grupinho no fundão falava sobre torcidas organizadas. Uma das pessoas do grupo, uma menina, era da Camisa 12 (Corinthians) e pediram para ela cantar algum cântico de torcida. Ela, talvez pressionada, só conseguiu lembrar de um. Sabe qual? Um que fala que o lugar de peixe é no aquário. Aí um mano falou que tinha um santista na sala (eu) e ela ficou um pouco receosa. Eu disse que fazia parte, e que ela deveria ser xingada com um cântico que diz que é certeza que filho de meretriz é corintiano. Ela se surpreendeu, falou que isso era o de menos no estádio e continuamos a conversa numa boa. Vendo este episódio, vejo o quanto as coisas podem ser resolvidas sem ignorância ou imbecilidade.

Um dos resultados de ter poucos santistas no meu círculo social é que eu mantive contato com quase todos. E, por ser um engajado torcedor, quero que os outros santistas que conheço também participem do Santos. Uma das formas que mais gosto de fazer isso é chamando para ir ao estádio e, de preferência, que assistam todos juntos. Se há uma coisa que me deixa feliz é ver amigos meus conversando, interagindo e até formando novas amizades por minha causa. Quer dizer, por causa do Santos. Se uns nem sabem a escalação do Santos, quando joga, posição na tabela, isso é indiferente. A partir do momento que falou que é santista, terá o pacote completo da “amizade Santos” hahaha. Eu implico com duas santistas é verdade, mas é porque uma tem um passado corintiano e a outra grita “Hala Madrid” a não sei quantos mil quilômetros de distância. É uma brincadeira com elas claro, quem sou eu para julgar como cada um torce? Ainda tem a minha mãe, que diz que é santista, mas na verdade ela é a torcedora número 1 do Mateus Lemos FC.

Voltando a história do pai para filho, meu pai fez o que deveria ser feito por um pai que quer que seu filho torça pelo mesmo time que ele. Desde o meu quarto dia de vida e no primeiro em casa, eu, no berço, olhava para cima e via uma enorme camisa do Santos pendurada. Uma campanha velada, mas interessante. O pessoal do marketing acharia um bom case. Além disso, meu pai falava sobre o Santos comigo e comprava brinquedos do peixão também. Nasci em 1995 e devo ter visto um Messias de cabelos de fogo acabar com o Fluminense no Pacaembu em partida épica pela semifinal do Brasileirão. Devo ter visto também duas semanas mais tarde, Márcio Rezende de Freitas enterrar o Santos e fazer o Botafogo campeão. Eu não poderia ficar no quase. Fui crescendo e tomando gosto por futebol e num momento de decisão, Robinho deixou Rogério na saudade com incontáveis pedaladas e abriu caminho para o Santos conquistar meu coração. Dessa partida em especial, eu lembro que meu pai batia tanto no armário para comemorar os gols e o título que achei que ele o móvel ia desmontar a qualquer momento kkkk.

Quem é Philip Kotler perto do meu pai? Um aprendiz kkk. Detalhe para essas violetas no meu berço hahaha.

Você não torce para um time só porque ele é campeão. Quero crer que não. Eu me lembro de alguns detalhes que ajudaram na minha formação santista. Uma camisa metade Santos metade Brasil que eu tinha, um amigo do meu pai que me deu. Ela era linda e deu sorte em 2002, pois fomos campeões do mundo com a seleção e depois o time ganhou o brasileiro no mesmo ano. O escudo “feliz” do Santos e eu assistir uma partida do Santos na TV como um adulto aos 5 anos de idade, na casa de uma ex-moradora do prédio que meu pai trabalha (mal sabia o sofrimento que teria para assistir partidas na TV com esse time) ajudaram também. Agora, sem dúvidas, um dos principais foi a vinheta de fundo durante o grito de gol do Santos na narração da Globo. Meu, é o MELHOR. Sério, sem clubismo, é o mais divertido, animado, legal. Os antigos, até 2006, 2007, eram mais zikas do que os de hoje. É um trecho do canto que muitos acham que faz parte do hino oficial, mas na verdade, ele foi feito na época do Santos de Pelé como uma música mesmo, para tocar na rádio, e fez tanto sucesso que se confunde com a história do clube. Abaixo um vídeo que sintetiza os dois últimos parágrafos. Se você for santista cuidado, altíssima dose de emoção.


Torcedor que é torcedor não é forjado na vitória e sim na derrota. E eu tive uma que me marcou por um longo tempo. Falo de Corinthians 7 x 1 Santos. Meu, eu ainda não sabia direito esse negócio de sofrer, mas lembro que fiquei triste. Tinha feito naquele ano uma anotação de todos os jogos do Santos e me impressionava com a disparidade do placar comparado com os dos outros jogos. No entanto, eu senti mesmo foi no dia seguinte na escola. Parece que eu tinha pagado o maior mico da história no dia anterior e os meus “colegas” queriam tirar uma com a minha cara, mas tinha sido tão feio que estavam com dó. Só ouvia as risadinhas e via os olhares maldosos. Poxa, para um mlk de 10 anos isso gruda e não sai mais. Desde então comecei a nutrir um ódio para com o Corinthians que só foi acabar em 2012, quando cego de raiva, discutia com uma menina via Facebook o “escândalo” que era a preferência dada pela mídia ao time de Itaquera em detrimento do meu. Foi tal o nível de estresse que se a conversa fosse pessoalmente eu poderia ter batido nela. Aí me dei conta que isso não leva a lugar nenhum e desde então sou um torcedor consciente, até assisti um Corinthians x Santos esse ano na torcida dos caras.

Quando meu pai me levou a primeira vez ao estádio para ver Santos x Marília no Parque Antártica em 2004 (sim, isso mesmo que você leu, um jogo com o mando do Santos no estádio do Palmeiras, hoje a chance de isso acontecer é a mesma do Palmeiras ser campeão mundial, e isso não é uma piada kkkk), ali estava sedimentado um dos caminhos que mais fiz na vida, ir a um estádio de futebol. Com o Santos são mais de 50 jogos e boas histórias que talvez conte neste blog. Só como aperitivo, vi o primeiro jogo como profissional do menino Ney e deixei de ir à festa de aniversário da minha mãe para ver um jogo do Santos.

Olha aí a relíquia. Lembro que nesse jogo tive o primeiro contato com a marijuana. Perguntei para o meu pai que cheiro estranho era aquele que estava na arquibancada e ele nem respondeu, só saímos de perto hahaha. Guardei TODOS os ingressos dos jogos que fui até o advento da compra online esse ano. Mas ainda tem lugares que pego o ingresso e continuo guardando.

Visitei a Vila Belmiro pela primeira vez em 2011, nas “melhores férias” com o meu pai. Pois em uma semana visitamos o Rio de Janeiro e conhecemos a casa do nosso time, dois sonhos do meu pai. Fomos no sábado de manhã para Santos e descemos direto para praia. Era a primeira vez que pisava em uma. Tomamos banho de mar e depois curtimos uma sombra e água de coco até pouco antes da hora do jogo à noite. Enfrentaríamos o Atlético-MG. Última partida do Danilo, hoje no Manchester City, pelo clube. O próprio fez um golaço de fora da área no primeiro tempo. Humberlito Borges aumentou numa cobrança de pênalti. Pênalti que foi desperdiçado pelo galo por Jonatas Obina (soube que ele se naturalizou por Guiana Equatorial e jogou eliminatórias africanas da FIFA para Copa do Mundo de 2014 hahaha que no sense). Tomamos um no segundo tempo, mas nada que impedisse a nossa vitória no meu primeiro jogo. Desde então são 9 jogos na Vila e nenhuma derrota (6V 3E).

No dia seguinte visitamos o museu do clube, que tinha uma taça novinha em folha, a Libertadores da América. Passeamos pelos vestiários, camarotes, sala dos troféus. Sentamos no banco de reservas e "demos entrevista" na sala de imprensa, mas eu queria era pisar no gramado. Só que não era possível. Fiquei frustrado, mas entendi. Não vou dizer que prometi que iria pisar um dia, mas o destino sorriu para mim e tive essa chance 6 anos depois. Para saber como foi esta oportunidade, leia (ou continue lendo) Eu sou Santista. 

Fui, partiu aonde é o resgate.

Eu sou Santista


André Rocha, colunista do UOL Esporte, escreveu um belo texto (aqui) falando sobre a curiosidade das pessoas em saber o time de coração do jornalista esportivo. Resumidamente ele fala do absurdo de que as pessoas não separam torcedor do profissional e se este trabalha num jogo ou comenta sobre o time dele, tudo o que ele diz ou faz automaticamente não tem crédito, afinal de contas ele é um torcedor. Recentemente teve o episódio da suposta participação do repórter Eric Faria da Rede Globo na partida Santos x Flamengo, jogo de volta, válido pela Copa do Brasil. O Santos protocolou uma queixa contra o repórter e a invalidação do jogo para a CBF, alegando que tinha provas sobre sua contribuição, que no caso, seria ter avisado o quarto árbitro de que o pênalti marcado seria irregular. Tudo isso porque Eric Faria é flamenguista e já foi visto na torcida em jogos do Flamengo quando não estava trabalhando. O presidente Modesto Roma Jr. afirmou ao vivo na ESPN que havia imagens das câmeras de segurança do estádio mostrando a conduta irregular e no fim das contas tinha somente uma testemunha ocular (da história, o Repórter ESSO hahaha sdds Braga). Resultado, além do jogo não ser invalidado, o presidente foi suspenso por duas semanas, não podendo representar o clube publicamente, e teve que pagar multa. Papelão.

O que tudo isso mostra é que por causa do futebol, muitas pessoas não analisam com critério as situações da vida. Você acusaria alguém de participar de um crime na sua empresa só porque ela trabalha em outra e estava lá, sem provas? Pois foi mais ou menos isso que aconteceu na Vila. Uma atitude feia e deselegante, mas que levantou mais uma vez o debate do comportamento do dirigente de futebol no país. Além do desejo de saber para qual time torcem os jornalistas que aparecem na mídia. Sim, os da mídia, pois há milhares de jornalistas que, como eu, têm times de coração, mas ninguém se interessa em saber, pois são pouco notados ou nem são vistos, lidos ou seguidos.

Há pessoas que transpiram futebol e ainda mais o seu time. Elas vivem o clube, são adeptas por inteiro e numa pergunta entre escolher qualquer coisa e o time, nem se dão ao luxo de responder, não importando a outra opção perante a sua agremiação. Eu admiro essas pessoas, de verdade, pois encontraram um significado para a vida. Pode-se questionar se é certo ou errado, exagero, pouca cultura. Não importa, tenho absoluta certeza que elas são felizes e isso basta. Eu não sou assim. Aliás, muito longe de ser. NOOOSSSAAAA Mateus, para de mentir meo, você respira futebol cara, no seu Facebook só tem futebol, eu só falo de futebol contigo, te conheci por causa do futebol, acho até que você deixa de trans..............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................formar a sua vida por causa do futebol. Sim, tudo isso é a mais pura verdade, mas é porque eu transpareço mais isso. Quem é mais próximo de mim sabe que sou muito mais que futebol (ainda bem né hahaha). Evidente, claro, óbvio que eu desenrolo muito mais falando sobre futebol do que qualquer outro assunto, pois eu leio muito sobre, vejo muito, consumo futebol. Porém sei dar esse distanciamento necessário para não me “contaminar”. Não digo isso como se fosse algo ruim, mas é que por ser um cara de perfil ponderado e, ainda mais agora sendo jornalista, definitivamente não posso ter um lado. A não ser que a profissão exija, como é a experiência que tenho hoje em dia no Nacional. E mesmo assim, assessor de imprensa não é torcedor, tem que ser verdadeiro e publicar a informação correta.

Eu tive a melhor experiência futebolisticamente falando da minha vida no dia 02/09. Fui escalado para cobrir Santos x Nacional na Vila Belmiro e tive a oportunidade de entrar no gramado. Por acaso eu torço para qual time? Sim, para o Celta de Vigo (não acredita? Meu time no Cartola FC chama-se RK Celta de Vigo e logo mais chegará vinda do exterior uma linda camisa celeste do maior clube da Galícia). Zuera, sou santista hehe, mas é tudo verdade o que está entre parênteses. Ora, qualquer torcedor santista, tal como descrevi no início do terceiro parágrafo, entraria num estado de euforia plena com esta chance, que faria LSD ter o mesmo efeito que aquelas balas de goma escanteadas em festas infantis (deixando bem claro que não uso drogas ilícitas, mas admito que consumo apenas uma lícita, que é vendida em todos os Mc Donalds do país). No entanto, bom, melhor eu contar a história.

Quarta-feira, dia 30/08, fiz o clássico JuveNal no Nicolau Alayon. A partida terminou em 0x0. Fazia o texto do jogo normalmente, mas quando comecei a escrever “o Nacional volta a campo sábado......” parei. Pensei “PUTA QUE LA PÁRIA, eu vou para Santos e não será apenas por diversão, mas também a trabalho e que trabalho é esse? Cobrir o jogo pelo adversário do meu time.” Não estou aqui querendo dizer que seria uma situação difícil, “oh meo Deus, vou trair o meu time, não mereço ser alvinegro, vou para a inquisição”, nada disso. Tinha ciência do que tinha que fazer, mas POXA VIDA HEIN WOOOOOL, eu estaria na Vila Belmiro, na minha casa, onde me sinto mais à vontade, onde a magia acontece, onde fui feliz. Era uma situação singular que estava prestes a viver e pensava nisso.

Não houve uma ansiedade assinalável. Fiquei mais preocupado contra a Portuguesa, já que era a estreia. Tudo bem, este seria meu terceiro jogo que cobriria no profissional, mas sabe quando os boleiros dizem “tirar aquela pressão da estreia”? Então, foi bem isso mesmo e no jogo seguinte contra o Juventus já sabia o que fazer. No sábado, dia do embate, estava escaldado do jogo da Lusa, não fiz nada durante a manhã e cheguei com 10 minutos de antecedência (hahaha queria o quê? Meia hora? Pfvr), mas que se tornaram 50, somado aos 40 minutos de atraso do ônibus em sair. Planejei mexer no notebook durante a viagem para Santos, apagar aqueles arquivos de 200 a.C. que você nem sabe mais como foram parar lá. Que nada. Sentei na poltrona da janela, coloquei meus zouks para tocar no celular e fui curtindo o passeio.

Porém quando chegamos na cidade, mermão, comecei a reagir bicho. Passando pelos caminhos conhecidos, o túnel, o estádio da Portuguesa Santista, queria contar as histórias que vivi nestes caminhos para alguém, mas o mano que estava sentado ao meu lado dormia. O ônibus começou a circular o estádio, como se fosse um tour turístico e eu pensando “chega logo caramba, antes que eu mude de ideia e comece a gritar SSSSSSSSAAAAAAAAAAAANNNTTTOOOOOOOOOOOOOOOOOSSSSSSSSSS”. Enfim desembarcamos e entrei no vestiário visitante. Pronto, neste momento eu entrei em modo automático, o mesmo que os pilotos de avião colocam para percorrer uma distância muito longa sem alterações de rota ou altitude.

Reparava no vestiário, na pequena quadra de aquecimento, nos armários, enfim, em tudo, tal como quando você espera ser atendido num consultório médico (em condições humanas diga-se). Só faltava a revista e a TV mostrando Encontro com Fátima Bernardes. Eis que Ranier, assessor do Santos, responde minha mensagem em que disse que havíamos chegado. Ele pergunta se poderíamos trocar as escalações naquele momento. Ainda não havia dado a “uma hora regulamentar”, que é o prazo máximo para liberar as escalações. Enquanto ponderava a questão, o auxiliar técnico Ricardo Silva pergunta se poderia arrumar a escalação dos caras. Aaahhh mlk, agora noix entra em ação. Passo pelo corredor e no fim dele você sobe os degraus para o gramado. Quando pisei na parte de cima nem liguei muito, pois tinha uma tarefa em curso. Troquei as escalações e Ranier me pediu mais uma folha, pois ele precisaria para fazer a transmissão do jogo pela Santos TV. Demorou. Pedi para ele me esperar pois na volta já viria “uniformizado” de Nacional e iriamos para as cabines.

É o que dá para mostrar do vestiário. Do outro lado estavam os atletas trocando de roupa. Como não fiquei durante a preleção, não tirei fotos "ilustrativas" digamos assim.
Esse é o campinho de aquecimento. Eu com uma bola ficaria horas brincando sozinho.

No caminho de volta passo por um repórter e pergunto se ele queria falar com o assessor do Santos. Ele entende que eu quero saber disso e me mostra o Ranier de longe. Respondo que já falei com ele e continuo o caminho para o vestiário. Mais uma conversa em que não há comunicação de fato como tantas outras diárias, só que eu estava falando com um dos “nossos”, digo, do Nacional, e nem fazia ideia hahaha. Depois do jogo descobri que Deivid Silva, o repórter em questão, era o “mídias sociais” do Naça durante o jogo. Ainda bem que não fui eu.

Chego com o papel e sou elogiado pela rapidez. Rápida não era a triagem de roupas para achar alguma do clube para mim. Mas com razão, seu Dirceu trabalha praticamente sozinho e não tem que se preocupar comigo né. Chega um dos árbitros da partida procurando pelo Pepê, gerente de futebol. Alguém diz que ele tinha saído e eu me candidatei de imediato a ir procurá-lo. Mais uma vez subo ao gramado e nada “acontece”. Ao longe, vejo Pepê e corro para dar o recado. Antes de eu falar alguma coisa ele lembra da minha caneta. Ele tinha pego emprestado e deixou na sala dos árbitros. Ou seja, meu recado já era, ele já tinha feito o que precisava. Aproveitei e pedi uma folha de escalação e fui resgatar minha caneta. Nesse tempo os jogadores do Nacional começaram a entrar em campo para tirar fotos e eu nem me toquei. Voltei para o vestiário e Dirceu, o roupeiro, parecia mais ocupado do que antes. Pensei “ah, vou dar um tempo lá fora”. Voltei mais uma vez para o gramado, só que dessa vez “bateu”, tal como no filme Lobo de Wall Street (quem viu sabe de qual referência estou falando hahaha).

Pausa na história. Você pode zerar o jogo de duas maneiras. Jogando a história completa ou, além disso, realizar todas as missões, quests, desafios, trivias, enfim, tudo. Eu já coloquei alguns links no texto, mas nesse aqui, você vai entender um pouco melhor o “bateu”.

Cara, eu estava pisando no gramado da Vila Belmiro. Não é qualquer gramado, é somente o gramado do Reino do Futebol em excelente estado. Quando via na transmissão o Fernando Fernandes (repórter da Band) dizendo “aqui até perna de pau joga” ou “mesa de bilhar” não fazia muita ideia, agora sei realmente o que ele queria dizer. Tirei fotos, mas meio incrédulo, parecia que eu não estava ali. Estava sendo “fácil demais”. Eu sou um cara cauteloso, jogo na defesa e aquilo era um gol aberto sem goleiro, só chutar que é gol. Infelizmente não pude fazer isso literalmente, mas quem sabe um dia né. Alisei a grama, fazendo carinho mesmo. Pensei em arrancar alguma graminha, mas vai que estão filmando e do jeito que tenho sorte, seria obrigado a fazer nascer a grama que tinha tirado. Deixei quieto e depois de alguns minutos curtindo o momento, voltei para o vestiário. Já estava outra pessoa. Era tamanha felicidade que se alguém chutasse o meu playground, como diz o santista Fausto Silva, eu daria um abraço nessa pessoa.

Tá vendo esse círculo demarcando o meio? Então, dois jogadores meia-boca chamados Pelé e Neymar ajoelharam-se neste lugar em seus respectivos jogos de despedida da Vila Belmiro. O do Neymar não foi o último de fato, ele jogou ainda mais uma vez, mas por ser numa final de Campeonato Paulista, contra o Corinthians, marcou os torcedores e foi uma resposta as especulações de sua saída para o Barcelona-ESP.

Quando chego Dirceu já estava com a minha camisa. Meu, as coisas estavam acontecendo, só faltava o Nacional vencer. Sim, o Nacional vencer, isso mesmo. Quero que o Santos e o Nacional se classifiquem, e para isso o ideal era uma vitória do Naça. Pego minha mochila e volto mais uma vez para o gramado. Dessa vez faço questão de andar devagar, tiro uma foto para o Pepê e o Murilo, diretor de futebol, e vou esperar o Ranier na entrada do vestiário santista. Enquanto isso, assisto os goleiros Preto e Gabriel Gasparotto se aquecendo a 10 metros de mim. Se você sabe um pouco do esporte futebola, pode se perguntar: Ué, cadê o Vanderlei? The God of Traves joga no time principal, o Santos que entraria em campo era o time B, um time feito para acomodar jogadores acima de 20 anos que não podem mais jogar na base e jogadores em observação que podem ser utilizados no time de cima. Mesmo assim é um time forte, que vai disputar o título e consequentemente tem muito mais chances de classificação que o Nacional na Copa Paulista, torneio criado pela Federação Paulista para dar calendário aos times que não tem divisão nacional.

Ranier chega e lá vamos nós para as cabines. Ele me pergunta se sou de São Paulo e se escrevia para o clube mesmo ou se era só um trampo para esse jogo. Falo que sou paulistano e que trabalhava para o clube, MAS que era santista. Essa conjunção coordenativa adversativa (pesquisei evidente) não faz sentido eu sei, todavia eu queria falar que estava ali como “raposa cuidando do galinheiro”, mesmo que de mentira huahuahua. Ele responde que por isso eu estava tão feliz. Caramba, estava dando para perceber hahaha.

Saímos do estádio e entramos novamente por outro lugar, um portão ao lado do memorial do clube. Lá encontramos uma jogadora do Santos feminino. Infelizmente não guardei seu nome kkk. Ela ia assistir o jogo junto com outras jogadoras que moram na Vila e que “não tinham nada para fazer” segundo ela. Já no andar das cabines, ele disse “pode escolher, tem 30 a sua disposição.” WWWWWWWWOOOOOOOOOOOOOWWWWWWWWWWW. Na verdade tem menos, mas isso não fazia diferença. Me acomodei em uma delas e comecei a refletir que jamais estaria numa cabine da Vila Belmiro se continuasse com a minha busca “Sindicato dos Motoristas de Carrinho de Mão” e agora estava ali, quase participando da transmissão do jogo pela Santos TV.

Cara, são pequenas as cabines, cabem no máximo 4 pessoas se espremendo kkk. Todas são devidamente marcadas pela emissora. Essa é da Rádio Bandeirantes. Não fiquei nesta, pois a da Guarujá FM era a mais centralizada hehe.

Essa era a minha visão do jogo. Nada mal não? Hahaha.

A bola rolou e eu me concentrei na partida. Aos 10 minutos, Naldinho abre o placar para o Nacional num bonito voleio na pequena área. Comemorei o gol. COMO ASSIM MATEUS? ELE FEZ GOL CONTRA O SANTOS! TÁ LOKO? Nilmar, atacante recém-contratado pelo Santos para a “equipa principal”, como diria Football Manager, disse em entrevista que se caso fizesse gol no Corinthians ou no Internacional, equipes que ele teve sucesso aqui no país, ele comemoraria, pois ele é da opinião de “que tem que comemorar, seria falta de respeito com o clube que está jogando. Se não for para o comemorar nem joga”. Antigamente eu pensava que se eu fosse jogador e tivesse um passado no Santos, não comemoraria meu gol. Se fosse um craque, marcasse a história do clube, eu nem sairia do Santos (eu sei que isso é bem complexo e que carreiras como a de Marcos e Rogério Ceni são exceções das exceções, mas como isso aqui é hipotético, deixa eu ser feliz hahaha). Portanto não teria essa questão para resolver. No entanto hoje em dia, se eu fosse um jogador mediano, que nem vaia receberia por não ter identificação, comemoraria sim. Quer um exemplo? Henrique Dourado, o Ceifador, artilheiro do Fluminense, é SANTISTA (toda sua família também) e antes de se tornar profissional ia no estádio e era sócio do clube. Teve a chance de JOGAR no Santos em 2013, depois de se destacar no Mogi Mirim pelo Campeonato Paulista. CHOROU durante a apresentação e disse que deixaria tudo em campo pelo Santos. Sua passagem durou apenas 4 partidas e ele rumou para a Portuguesa no mesmo ano, naquele Brasileirão que o clube lusitano caiu nos tribunais. No primeiro turno do Brasileirão deste ano, fez gol de pênalti contra o Santos no Maracanã e fez sua tradicional comemoração de “degola”. Portanto, se nem jogador eu sou, por que não comemorar não é mesmo?

O Santos empatou ainda no primeiro tempo com Marquinhos, pois tem um time melhor e estava merecendo o gol pelas chances criadas até então. Não comemorei. Naldinho teve duas ótimas oportunidades de dar a vantagem outra vez ao Naça, porém as desperdiçou. Hijo de una gran madre. O segundo tempo foi bem mais ou menos e deu tempo até de ser entrevistado por um “Guarujá Evening” da vida hahaha. Respondi a duas perguntas: Quem ganharia o clássico (Santos x Corinthians) e se o Levir Culpi deveria poupar os titulares neste jogo, já que o posterior era pela Libertadores. Disse que apostava no empate, mas se tivesse um ganhador, seria o Santos (é, até que não errei kkkk) e que teria que jogar com os titulares, pois era um clássico, dentro de casa e seria a única chance de tirar a vantagem diretamente deles no campeonato (slk, deitei nessa hahaha). No fim das contas acabou 1x1, ruim para o Nacional que saiu do G4 com o resultado.

Esperei Ranier terminar a transmissão (ele narrou o jogo pela Santos TV) para sairmos juntos do estádio. No portão encontramos Juary, ex-ponta direita e atacante do Santos na primeira safra de “meninos da vila” que ganhou o Paulistão de 1978. Atualmente ele trabalha nas categorias de base do clube. Eu e Ranier o cumprimentamos, mas nem pensei em tirar uma foto com ele. Aliás, eu gosto tanto de selfies que se eu me encontrar com a Bruna Marquezine, só vou trocar ideia com ela mesmo hahaha. Voltei para o vestiário, comi uma maça e um sanduba que me ofereceram e entramos no ônibus para voltar a São Paulo. Durante o caminho, Ricardo e Murilo me zuaram pois desde que comecei a acompanhar o clube, não vencemos mais nenhuma partida (3 empates e uma derrota no profissional, além de uma derrota no Sub-20) e cogitavam não autorizar minha entrada no próximo jogo contra o São Caetano (entrei e vencemos carajo! 2x0, até meu pai estava no estádio para tirar a urucubaca). Imagina se eu falasse que era santista huahuahua.

Em casa comecei a pensar este texto e fazer suas conexões. Já tinha planejado essa do time que torço x o time que represento, mas o escrevendo vi o quanto eu sou santista. UÉ, VOCÊ TINHA DÚVIDAS? SABIA, POR ISSO VOCÊ COMEMOROU O GOL DO NACIONAL.......TRAÍDOR, INDIGNO, HIPÓCRITA, FILHO DA P..... Pera lá kkkkk, eu nunca tinha “revisitado a minha história” de como me tornei santista como fiz para escrever esse texto e principalmente o conteúdo extra para explicar o “bateu”. Entrevistei meus pais e descobri que o Santos me escolheu e não o contrário. Poderia torcer para outro time, meu pai não me obrigou a ser santista (se bem que, se não fosse, iria aproveitar menos o meu pai, tal como umas pessoas não aproveitam de uma pessoa boa que eu conheço hahaha). Minha cor preferida é verde e moro a 10 minutos apé do Chiqueiro Parque. Um amigo meu não se conforma de eu estar tão próximo do milionário bicampeão da Série B e torcer para um time que sua casa está há 80 km de mim (ou a 2 km se for no Pacaembu hehe). Como diz o hino santista, “é um orgulho que nem todos podem ter.”

Se por acaso eu vier a ter alguma notabilidade no cenário esportivo um dia, deixo esse registro para ninguém precisar especular para que time eu torço. Tomara que eu trabalhe no Santos e supere em muitos anos as carreiras longevas de Marcos, Rogério Ceni, Harlei, Maldini, Totti, Del Piero, Di Natale, Renan Calheiros, Garibaldi Alves, José Sarney.........

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Uma nova alcunha


Meu pai e eu gostamos de dar apelidos as pessoas, objetos, acontecimentos, enfim, a muitas coisas. Quando falo dele para o meu primo (Diego Barejón), chamo meu pai de Roni (não sei por quê kkk) e saúdo meu genitor com um “e ae, macho” ou “e ae, ô prébói”, assim mesmo, errado. Rodrigo não é o nome que consta no RG dele e a maioria das pessoas que conhecemos o chamam pelo nome artístico. Sinal que o apelido que deu em si mesmo foi um sucesso.

Ele me chama de jornalista, mineiro, atleta, barba negra (quando a deixo crescer) e principalmente Capitão dos Marromeno (para entender leia aqui). Mas ele sempre tem termos novos para se referir a mim. Já eu gosto de não ser direto quando cito uma pessoa. Se por exemplo converso com alguém e quero falar de um terceiro, digo seu(sua) amigo(a); seu(sua) parente sem falar o nome da pessoa após; ou algo muito específico, que fica muito difícil do meu interlocutor não saber quem é.

Domingo passado foi a minha estreia como titular no Nacional e se por acaso você chegou até aqui sem saber disso (duvido MUITO, até porque a audiência desse blog é fantástica) por favor, pare de ler esse texto e leia este. Se você sabia, parabéns, Deus está vendo suas boas ações.

O dia foi diferente, como não poderia deixar de ser. Já acordei ligado e ansioso para o jogo. Li o que tinha que ler, arrumei um caderno para as minhas anotações, pois faltou espaço no bloco de notas que levei no sábado para o jogo do sub-20. Terminei de escrever o texto Rumo ao Estrelato 01, e quando me dei conta já estava atrasado. Almocei às pressas e fui para o clube.

Chego correndo, achando que os jogadores estavam no ônibus, tão em cima da hora que estava (fui informado pelo Paulinho, executivo de futebol, para estar lá às 13:00, apareço às 12:57). Na entrada vejo o Pepê, gerente de futebol, e o auxiliar técnico Ricardo Silva seis marchas abaixo da minha. Me apresento, já que ainda não pude ver todos da diretoria, e digo que vou acompanhá-los no jogo. Paramos em frente ao portão do estádio, só nós três e eu não entendia por quê. Até que Ricardo falou para Pepê: “Vamos sair às 14:00 né?”. Melhor uma hora adiantado do que não achar o ônibus.

Logo em seguida ambos me perguntam se não estava sentindo frio. Ora, quem me conhece sabe que eu e o Iceman somos primos. Respondi que tinha entrado em contato com o Sr. Miguel para ele me arranjar uma blusa do Naça. Ele ia ao jogo e lá me entregaria. Foi planejado, tenho blusa (que bom né, por mais frio que eu seja hehehe) e poderia ter ido com ela. Se eu seria assessor do clube, queria estar devidamente uniformizado.

Depois de algum tempo, fomos todos para a sala de direção do clube, que fica embaixo do placar. O zagueiro Diego Chiclete e o auxiliar de preparação física Guilherme estavam conosco. Conversas e mexidas no celular davam o tom. De repente, Murilo, diretor de futebol, entra na sala. O cumprimento e ele pergunta quem eu era. Antes de eu responder, Ricardo diz que era o novo Assessor de Imprensa do clube e que agora a gente (Nacional) estava chique. Só nesse instante me dei conta do que eu tinha me tornado, na alcunha que recebi, no que eu estava fazendo ali naquela sala, onde só falávamos de futebol.

Às 14:00 chegaram e eu já na expectativa de como seria a zuera no ônibus. O conhecimento geral, pelo menos para mim, é que de que no ônibus só rola resenha e pagode. É, não desta vez ou nesse grupo de jogadores. O que teve foi fone de ouvido, celular, cada um no seu canto e somente um incauto com uma caixa de som tocando Simone & Simaria, Marília Mendonça e uns raps em volume médio.

Pode me achar estranho (se é que já não acha), mas eu achava o máximo quando mostrava na TV o desembarque dos jogadores e a entrada no vestiário. Aquela “concentração” e “foco no jogo” na cara deles, somado aos zueiros da turma do fundão com os pagodes, funks e fones de ouvido maiores que a cabeça deles. Só é glamouroso na TV mesmo. Meu desembarque foi debaixo de chuva, em silêncio e ninguém da imprensa para “pegar a minha palavra”.

Dentro do vestiário, o roupeiro já tinha deixado tudo arrumado e os jogadores começavam a se trocar para depois ouvir a preleção do Betinho. Eu, ainda não acreditando muito no que estava vivendo, me preocupava com o Sr. Miguel e a minha blusa; soltar a escalação para a imprensa e achar o Luiz, assessor da Lusa que ia me levar a uma cabine para assistir ao jogo. Tive melhor sorte que o Vinícius, fotógrafo do clube, que sem suporte na câmera para o guarda-chuva, se virou como pôde para registrar os lances da peleja e não molhar o equipamento.

O "professor" Betinho orientando seus comandados. Imaginava se tudo o que ele explicava de fato seria visto em campo.

O tempo passava e nada de resposta do Sr. Miguel. A escalação do time mandante já estava conosco e ninguém havia perguntado da nossa. Deduzi que arrumaram um jeito de saber enquanto estava fora, à procura dos nomes da equipe de arbitragem. Encontro com Luiz na saída do vestiário para o gramado e ele me chama para irmos à cabine. Falo que precisava da blusa e que esperasse mais um pouco que ia providenciar. Vejo que a nossa torcida está colocando suas faixas. Dez nobres e corajosos cidadãos, que saíram de casa para ver um jogo de Copa Paulista, numa gelada e chuvosa tarde de domingo. Pergunto a um deles sobre o Sr. Miguel e ouço um “ah, ele não vem quando tá um tempo desse”.

Volto correndo para o vestiário e falo com o roupeiro se não teria alguma blusa sobrando. Você pode se perguntar agora por que não fiz isso antes. O material do clube é contado, não tem blusa para dar a um “quem é você?” que cobria seu primeiro jogo de time profissional na vida. O roupeiro, talvez com dó, tira uma blusa das coisas de um jogador e me dá. “Ele é meio chato com isso, mas vamos ver” resmunga. Prometo que voltaria o mais rápido possível depois do jogo, mas já falei sabendo que não cumpriria.

Eu com o lindo agasalho do Naça! O mais bonito que já usei hehe. Essa seria a foto do post do Rumo ao Estrelato 01, mas não dá para enxergar o campo e também em uma semana seria a terceira foto que eu apareço num estádio com três times diferentes, achei exagerado kkk. Aí bolei a que foi publicada, muito melhor que essa.

Finalmente uniformizado, acompanho Luiz que nos levaria a cabine combinada. Ainda no gramado, pergunto se vamos assistir ao jogo "lá em cima” e ele respondeu que sim. Opa, se a cabine não estava no nível dos “mortais”, onde seria? Bom, continuei a segui-lo quando teve mais um momento “o que eu tô fazendo aqui?”. Passa um rapaz entre nós dizendo: “Ele é do Nacional? Pode levar para lá”. O lá em questão era o elevador. Esperando o transporte, aparece Marcelinho Paraíba, craque luso que estava suspenso do jogo, com sua família. Jogador de seleção brasileira e futebol europeu ali, na minha frente, como “qualquer um”. Só pensava “que viagem bicho”.

Chegamos no “lá em cima” e só aí me dei conta de qual cabine Luiz falava. Pode achar burrice da minha parte, porém em nenhum momento relacionei cabine com os espaços onde as equipes de rádio e TV fazem as transmissões. Passo pelas salas, umas ocupadas e outras sem assento. Escolho uma que tinha cadeira e já me aprumo pois iria começar o jogo. Noto que na cabine ao lado está sendo realizada a transmissão de rádio da Equipe Líder. Paulo Sodate, e sua incrível imparcialidade para com a Portuguesa, narrava o confronto trocando metade dos nomes dos atletas do Nacional. Ao lado, ria e relevava, já planejando um tiro quase perfeito.

Estádio Dr. Oswaldo Teixeira Duarte, mais conhecido como Canindé para quem não conhece. À esquerda está o emblema da Lusa e a entrada do vestiário do time da casa. O "lá em cima" são as cabines localizadas acima das letras U, S e A das cadeiras cobertas, onde as luzes estão acesas. A cabine que assisti o jogo está na letra A.

Eu tenho a teoria que a vida nos dá balas, que se atiradas no momento certo, atingem o alvo em cheio. A vida me dava uma das melhores balas que já havia recebido. Meu pai ouve a Equipe Líder há pelo menos quatro anos (não assiduamente), quando em troca de estações de rádios em busca de alguma que estivesse transmitindo o jogo do Santos, encontrou Paulo Sodate, Ademir Quintino (principal setorista do Santos e comentarista do Esporte Interativo) e Alexandre Barros (atual presidente da Portuguesa) na rádio Tupi AM, hoje extinta. Houve mudanças de rádio pela equipe e no momento eles estão na Tropical FM. Ou pelo menos deveriam estar. Vocês vão entender por que mais à frente.

Qual foi a minha ideia, quer dizer, tiro: Uma selfie com o Paulo e uma citação durante a transmissão para o meu pai, que estaria ouvindo com certeza. Chegou o intervalo e coloquei o plano em ação. Entrei na cabine, cumprimentei a todos, fiz a selfie e deixei o recado. Pronto, já comemorava antes da dedicatória. Inicia o segundo tempo e logo após escuto: “Um abraço especial para Rodrigo Alves, que está acompanhando a transmissão e é pai do assessor de imprensa do Nacional, Mateus Lemos, que disse que o pai está torcendo para o Naça”. Pensei no Cristiano Ronaldo e na sua comemoração “eu tô aqui”. Sou foda.

Tá aí o Paulo Sodate, figuraça. Ele e meu pai são amigos no Facebook. Na narração dos gols, o da Portuguesa foi algo parecido como GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLL DA LUUUUUUUSSSSSSSAAAAAAAAAAAAAA, gritado a plenos pulmões. Já no tento do Nacional.....Gol do Nacional. Seco, sem nenhum esboço de emoção. Um cochicho ao pé do ouvido é mais alto do que o tom de voz que ele usou.

O jogo termina 2x1 para os donos da casa. O Nacional esteve perto da vitória, mas tomou um gol no final e perdeu. Eu, uniformizado com as cores adversárias, já começo a temer pela minha segurança. Chegando no hall do elevador, não vejo ninguém do clube. Imagino que eles já estavam lá embaixo e decido ir pelas escadas. Quando começo a descer o segurança me impede e diz para esperar. Vish. Logo após aparece o Paulinho e os jogadores do Nacional não-relacionados que foram ao estádio. Havia uma frustração no ar e todos se queixando da torcida lusitana. Os adeptos após o gol da vitória começaram a xingar jogar objetos no camarote dos visitantes. O elevador chega com 4 integrantes da Portuguesa para fazer a escolta. A única coisa que pensava era em como seria um Partizan x Estrela Vermelha (maior clássico sérvio e um dos mais violentos do mundo).

Chegamos ao vestiário, depois de ouvir algumas provocações na caminhada, já que passamos entre os torcedores da Lusa. Pego uma declaração do técnico Betinho (a coisa mais próxima de jornalista que tinha feito no dia, pois fazer o tempo real do jogo e escrever uma matéria depois, um torcedor alfabetizado também pode fazer, mesmo que ele seja engenheiro químico). Agradeço o roupeiro pelo agasalho e troco ideia com o Vinícius, enquanto esperamos os jogadores se arrumarem.

É hora de dar tchau ao Canindé. No ônibus enquanto conferia minhas anotações, recebo uma ligação de uma pessoa muito boa. Após, penso no quanto o meu post teria repercutido. Poderia ativar os dados e descobrir, mas para quê pressa né. Já perto de casa, só imaginava as felicitações, a emoção contida que meu pai tem nesses momentos, o abraço, a incomum demonstração de afeto. Mas (é, sempre tem o mas) ficou na imaginação mesmo. O jogo não passou na rádio e em estação nenhuma segundo ele. Até agora não sei onde passou essa transmissão ou se eles estavam treinando, simulando para quando precisasse. O que houve foi a mesma coisa de um jogador cobrar um escanteio, correr para dentro da área e ele mesmo concluir o passe com uma linda bike para fazer um golaço, sem chance para o goleiro E NINGUÉM GRAVAR O LANCE.

Antes de dormir, eu ainda com a cabeça a mil, pensando nas experiências, no texto do jogo, no que ia fazer no dia seguinte, meu pai diz: “Você sabia que tem um assessor de imprensa, e dos bons, aqui no prédio?”. É, acho que serei chamado de outra forma a partir de agora.