segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Testemunhas de Geová


Viajar é ótimo. E de avião é melhor ainda. A Bahia é um destino recorrente na minha vida. Mais precisamente Vitória da Conquista, ou mais precisamente ainda Bela Vista, povoado da zona rural do município de Belo Campo, que fica uns 35km da cidade conquistense. Quase sempre fiz o trajeto São Paulo/Vitória da Conquista de ônibus. No entanto uma vez, em 2015, fui de avião com a minha mãe e adorei. Nada de enfrentar quase 24 horas de estrada, e sim três horinhas de voo. Só que custa caro né bem e não dava para ter esse luxo em todas as viagens. Contudo em 2019 as cartas sorriram para mim (literalmente) e para minha mãe e fomos ao aeroporto não para esperarmos algum parente, e sim para decolarmos.

De 2015 para cá muita coisa mudou. Eu me formei, meus pais se aposentaram, o Neymar se tornou o melhor jogador do mundo e o São Paulo voltou a conquistar títulos importantes. Não, pera. Enfim, Conquista conquistou o inconquistável haha. Traduzindo, foi construído um novo aeroporto na cidade, em um local mais amplo para abrigar aviões de maior porte e capacidade de voo. Com isso as três horas de viagem passaram a ser menos de duas horas e as passagens caras continuaram caras, mas apenas se deixarmos para comprar em cima da hora. Comprando com antecedência e planejamento dá para ir e voltar pagando o mesmo que uma passagem de ônibus de ida, uns R$ 400. Excelente não é mesmo?

O Aeroporto Internacional Glauber Rocha, que homenageia um dos maiores cineastas brasileiros de todos os tempos, e que, vejam só, nasceu em Conquista, contou até com o presidente da República em sua inauguração ano passado. Eu e minha mãe não poderíamos deixar de experimentar essa novidade e marcamos encontro com o menino Glauber para o dia 5 de janeiro de 2020, por volta das 5:30 da manhã, um horário agradabilíssimo. 

Minha mãe, ansiosa que é, exigiu que saíssemos de casa à meia-noite, para dar tempo do ônibus noturno não atrasar HAHA. Zuera, para irmos de Uber ao aeroporto de Cumbica, ou Guarulhos para quem tem dúvida (um abraço para todas as pessoas que já se confundiram e perderam vôos nos dois principais aeroportos paulistas). Antes de 1:00 já estávamos na fila do guichê da Gol para realizarmos o despacho da oferenda, quer dizer, da mala da minha mãe kkk.

Se você caro leitor estiver bocejando neste momento e se perguntando porque perdeu alguns minutos preciosos da sua vida para ler um monte de nada, te garanto que isso foi como a subida de uma montanha russa, pois a partir de agora vamos descer e salve-se quem puder. WOOOOOOOW.

Na compra das passagens eu adquiri o despacho de bagagem apenas para minha mãe, já que ela ficaria quase um mês na casa da mainha dela kkk e eu, de estadia de onze dias, não precisaria mais que uma mala de dez quilos. Portanto levaria a minha bagagem na parte de cima do avião, junto com os passageiros. Chegando no guichê a senhorita Jéssica nos atendeu cordialmente e vendo o bom humor e estado de espírito meu e da minha mãe, passou a conversar conosco além de fazer seu trabalho. 

Digo a ela que só a mala da minha mãe será despachada, porém na conferência do documento da minha mãe ela diz que eu também posso despachar uma mala, sendo que ela nem viu o meu documento. Ué? Como ela sabia disso? Pensando que no pacote que comprei em um site de um outro site indicado por uma pessoa boa tivesse no "Li e aceito tudo o que tá escrito aí taóquei" alguma parte que ganhava uma bagagem gratuita, dei sequência ao "check-in presencial", já que tinha feito o "check-in ausente" haha em casa um dia antes.

Minha mala pesou 11kg e o da minha mãe 19kg. Para bagagens na parte de cima do avião, o máximo permitido é 10kg, ou seja, em tese eu teria que despachá-la no bagageiro da parte inferior da aeronave, no último "bloqueio" até o avião. Mas é de conhecimento geral que há uma enorme vista grossa nesse sentido e muita gente levou bagagens do tamanho da mala da minha mãe na parte de cima. Porém eu celebrei, pois como sou um sujeito muito sortudo, seria capaz de eu não viajar por ter um quilo a mais na mala. 

Antes de enviar minha mala ao mundo secreto das malas, que é retratado no Toy Story 3, travei o zíper com senha que só a Polícia Federal poderia abrir (porque sou patrão pai kkk) e nisto Jéssica entiquetou a mala da minha mãe. Após entiquetou a minha, mas não sem antes achar estranho os números dispares dos pesos e das malas. Ela corrigiu e nos despedimos das nossas bagagens enquanto elas iam pela esteira. 

Momentos antes de encerrar esta parte burocrática, notei que na passagem emitida para mim, uma espécie de ingresso de embarque, o nome do passageiro era GEOVÁ SILVA e não JESUS CRISTO huahuahua, quer dizer, Mateus Rodrigues. Chamo atenção do equívoco à Jéssica e ela questionou se não éramos mãe e filho. Respondemos que sim, mas que no momento do check-in em casa não consegui reservar dois lugares juntos. Ela disse que não tinha problema e que faria uma notificação no sistema avisando sobre a troca de nomes.

Já em frente ao portão 201, faltando uma hora e meia para o início do embarque e quase duas para decolar, tirei fotos para recordação, muito mais para a minha mãe no caso. Fazia piadas de quando iria chegar o ônibus que ela viajaria ou que eu era a estrela do voo com a minha jaqueta lindíssima da seleção nigeriana de futebol. Nessa hora observo que em todas as nossas viagens NUNCA teve um problema sério, sempre deu tudo certo e ela concordou. Só esqueceu de uma viagem de volta da Bahia para São Paulo que ela fez com o meu pai em que o ônibus foi parado duas vezes no caminho e somente meu pai, em meio a 45 passageiros, foi revistado HAHA. Viu, minha (falta de) sorte é de família.

Eu e minha mãe antes de embarcarmos. É uma imagem para ilustrar o conto, não para mostrar algo importante kkk. Detalhe para a mulher do canto superior direito que quando viu a selfie virou o rosto imediatamente haha. 

Também observei que o número de localizador e a poltrona do bilhete de embarque da minha mãe eram diferentes das que eu reservei e daí veio a resposta para o "engano" da Jéssica. Minha mãe se chama Maria Lemos da Silva. Então na passagem está Maria Silva. Convenhamos que este nome é tão comum quanto panetone no Natal ou "ibagens" de alagamento em janeiro na grande São Paulo. Logo, havia outra Maria Silva entre os passageiros e ao lado dela uma testemunha, ops, Geová Silva, que, por ilação, Jéssica pensou que fosse eu. Nesta confusão eu fui premiado com uma bagagem, já que o Geová pagou e eu não hehe. Falei tudo isso que disse acima para a minha mãe e chegamos a conclusão que teríamos que avisar a funcionária da Gol que faz o "cara crachá" antes da entrada no avião.

Às 2:40, cinco minutos antes do horário marcado, é iniciado o embarque. Pisquei e uma fila quilométrica já havia sido formada. Não ligava, pois estávamos sem bagagem, não teria por que me preocupar em não achar vaga para elas acima das nossas poltronas (quem viaja sabe que pode rolar de você estar na fileira 5 e a mala na fileira 25). "Bom dia. Há algum problema da passagem da minha mãe ser diferente do locali..."  "Não". Ok, mas queria ter terminado de falar pelos menos kkk. Eu estava na poltrona 27A e minha mãe na 28E. Próximos né, mas na verdade minha mãe deveria estar na 19D. 

Devidamente acomodados e com o avião cheio, é realizada a "chamada dos ausentes". Se um ausente estiver embarcado é porque algo de errado não está certo. Dentre os cinco nomes adivinha quais estavam? Sim, Caim e Abel haha. Não, Maria Silva e Geová Silva (que estava escrito assim mesmo na passagem, o com J é para quem crê na palavra huahua). Olho para minha mãe e ela me pergunta se devemos falar algo. Digo que não, pois, vejam só, não somos testemunhas.

Pouco antes das 3:30 decolamos e só me preocupava em tentar dormir. Cochilei um pouco menos de uma hora e acordei exatamente na hora do lanche hehe. Comi um bolinho com suco de laranja e tentei voltar ao sono. Entre pensamentos e piscadas longas eis que chegamos ao destino vitorioso kkk às 5:10. Após uns dez minutos de rolamento huahuahua ou taxiamento na pista, descemos do avião com a minha mãe impressionadíssima pelo tempo da viagem, pois "nem deu para fazer nada e já chegamos, só tomei água e nem comi o bolinho". 

Fomos para a esteira das malas e já de cara vi que não pensaram nos passageiros, deixando um espaço minúsculo para as pessoas se engalfinharem pelas bagagens. Minha mãe, iludida pensando que meu tio já estava lá para nos levar para a zona rural, queria pegar as nossas malas de qualquer jeito e avançou em uma tal como uma águia ataca sua presa na água, mas não era a mala dela. Foi tipo confundir uma melancia com uma ameixa. Com vergonha do ocorrido, ela me deixou para tarefa e ficou mais atrás esperando.

Vi minha mala e, bem posicionado, a peguei sem problemas. O tempo passava, as malas passavam e nada da mala verde da minha mãe. De repente minha mala apareceu novamente na esteira. Oxiii? Olho para trás e percebo uma etiqueta "prioritário" na mala que minha mãe tomava conta. Eu não sou prioridade nem para os meus crushs, o que dirá em malas hehe. Vou até ela e noto que o dono da mala que eu estava também vê algo errado. Corro até ele e minha mãe foi olhar a esteira. Sim, o cara tinha uma mala absolutamente idêntica a minha, mesma cor, modelo e marca, a diferença era apenas a etiqueta de prioritário na mala dele e o nome Maria Silva na minha. Oi? Mas essa é a minha mala, não a da minha mãe. Mermão, era o prenúncio do caos. 

Tal como uma cena de um drama francês da década de 60, as pessoas saíram de cena, as malas acabaram, a esteira parou de rodar e onde estava a mala da minha mãe? Meu mundo não caiu, mas minha mãe cairia se eu não a segurasse. Desespero é um eufemismo para a situação da minha mãe após não pegar a mala dela. "A mala é falsa amor, engole o choro embora eu não vou, agora vê se aprende a dar valor, que tu se ferrou, ferrou, ferrou", cantarolou Felipe Araújo em algum lugar do mundo tomando uma taça de vinho. 

Um segurança nos orientou irmos ao guichê da Gol enquanto minha mãe tremia e segurava o choro. Antes de chegarmos ao guichê abordamos um funcionário da Gol, falamos o ocorrido e ele, quase rispidamente, pediu para esperarmos lá, enquanto ele saia para ver outro assunto. Nisto percebo uma aglomeração e ânimos exaltados de passageiros que perderam um voo. VEEESH, só melhora a situação.

Marcelo é o nome do homem que nos pediu para aguardarmos o atendimento, só que naquele guichê apenas eu estava paciente. Oito passageiros perderam um voo internacional pois chegaram atrasados e não puderam fazer o check-in propositalmente segundo eles. E o motivo da fúria era maior pois, dizendo eles, uma nona passageira, que chegou depois de todos, foi atendida e embarcou (não no mesmo voo que era o deles, mas isso eles não falaram kkk). Minha mãe evidentemente fez questão que todos do aeroporto, não só da Gol, soubessem da perca da mala. Ou melhor, que dessem conta de recuperá-la. Até para a humilde faxineira do aeroporto ela apelou. 

Depois de um tempo Marcelo voltou, passou voando (a vá) pelo guichê e adentrou a sala onde só os funcionários ficam, piorando os ânimos dos presentes. Pouco tempo em seguida, Karine surgiu e iniciou o protocolo de recuperação da mala conosco. Bom, se caso a mala estivesse em São Paulo né, até então qualquer hipótese não poderia ser descartada, inclusive de furto. Não sem antes ouvir um emocionado e raivoso lamento de minha mãe. Eu sou completamente avesso a "choro", não acho que leva a lugar nenhum, e só piora o clima, mas o pessoal da Bola na Trave já está acostumado e solenemente "ignorou" os lamentos.

Fiz o preenchimento do requerimento até o momento em que pedia para que descrevesse três itens que estavam dentro da mala. Minha mãe assumiu a posição de fala e afirmou que tinha um cuscuzeiro, uma bolsa cheia de coisas (ué? kkk) e vários limões "para fazer uma caipirinha". As pessoas levam roupas na bagagem, minha mãe leva uma "ruma" de limão HAHAHA. Minha mãe nem bebe e diz que fará caipirinha com os limões. Realmente ela não estava bem. 

Terminado o preenchimento Karine pede o endereço de onde nós terminaremos a viagem para enviar a mala até lá, só que esse lá "não existe" hehe. É zona rural, não tem cep, endereço, nada (no entanto moradores "zueiros" do povoado editaram a Bela Vista no Maps com inúmeras avenidas de nomes como Lemos, da minha família; Gu e Dennis, meus primos; Tigre, da família que se apelidou com esse nome; e Cemitério, pois lá tem muitos acidentes huahuahua). Então ela ofereceu como solução esperarmos em um hotel com tudo pago pela Gol e a companhia entregaria a mala lá, caso ela estivesse em Cumbica. Aceitamos as condições e aguardamos a van que nos levaria.

Pergunto para o segurança que nos ajudou logo após a constatação do desaparecimento da mala, se seria possível levarem a mala propositalmente e se havia câmeras de segurança no desembarque. Tinha feito uma pergunta parecida à Karine e ela disse que não tinha como alguém ter pego a mala por engano, pois se não sobraria alguma bagagem e isso não ocorreu. Argumento válido se todo mundo pegasse sua mala, mas alguém muito bem pode pegar sem o real dono notar e era nisso que pensava, se no momento que eu fiz a troca da minha mala, minha mãe não viu e alguém apanhou a mala verde. O segurança afirmou que há "espíritos de porco" e que sim, era possível alguém levar a mala. Citou até um exemplo recente de uma mãe que pegou a mala de uma noiva por engano e a devolveu muitas horas depois. 

Ter mala extraviada é "normal". Enquanto esperávamos Marcelo retornar, três dos oito passageiros em busca do voo perdido também tiveram malas extraviadas e disseram que elas foram recuperadas. O cidadão que tem a mala igual a minha abordou dona Iu (é o meu apelido para minha mãe e uma ótima substituição de pronome) no saguão do aeroporto dizendo que isso aconteceu com ele certa vez e a empresa aérea foi entregar a mala na casa dele em Belo Campo. Mas Belo Campo existe, por mais que o nome da cidade não apareça no Google Maps huahuahua. 

"Mala igual" kkk disse ainda que se caso a Gol perdesse a bagagem pagaria uma multa no valor de R$ 3500. Cê acha que para minha mãe tinha preço uma mala com incontáveis limões? Huahuahua. Claro que não. E é não é que vi o "Mala igual" em Belo Campo dias depois? Pensei em abordá-lo e dizer que minha mãe "perdeu" R$ 3500, mas deixei passar hehe.

Dona Iu, mesmo após estar mais "calma" pelos remédios tomados, ainda estava inquieta, duvidando que a mala apareceria e que sequer sairíamos do aeroporto para o hotel. Ao mesmo tempo meu tio Zé fez a parte dele e chegou para nos buscar. Por estarmos ao lado de dentro do saguão ele não nos viu, houve um pequeno desencontro e minha mãe me encarregou de achar meu tio. Enquanto isso o pau comeu entre os funcionários da Gol, os oito passageiros e guardas das polícias civil e militar que surgiram para separar a briga. Eu infelizmente não vi nada disso, já que estava caçando meu tio ao lado de fora do saguão. 

Após passar um tempo na fina neblina conquistense, avistei meu tio ao longe, que tinha parado o carro distante do estacionamento para não pagá-lo. No breve encontro expliquei rapidamente que não voltaríamos com ele pois a mala resolveu ficar em São Paulo e pegaria um voo mais tarde, caso lá ela estivesse. Ao mesmo tempo a van dos funcionários da Gol também chegou e Karine conversava com a minha mãe ao lado de fora dissertando a tese do extravio da mala que eu já tinha concluído depois de colocar as ideias no lugar. 

Explico. Lá no início da viagem as malas foram embarcadas APÓS eu perceber o equívoco da Jéssica com os nomes. Logo as bagagens estavam com as etiquetas de Maria Silva e Geová Silva. Se o Geová Silva não embarcou, não estava presente no avião para responder a lista de ausentes, para que a mala deveria viajar? Com isso mais um erro foi elucidado. Minha mala não foi extraviada por mais uma desatenção da Jéssica, que colocou a etiqueta da bagagem da minha mãe na minha mala. Uma mala de 11kg com uma etiqueta de 19kg e vice-versa. Bom, menos mal que a mala estava em segurança e reencontraria a dona.

Houve um pequeno impasse do que seria feito até a mala chegar. Tio Zé disse que a estrada estava ruim. Sim, chovia naqueles dias e um dia antes de chegarmos caiu um bom pé d'água, e irmão, lá é roça tio, não é asfalto bonitinho ou piso de pedra, é terrão mesmo, em que a lama canta no The Voice dos pneus. Feita essa pontuação, ele preferia que fôssemos ao sítio e 17:00 estivéssemos no aeroporto, horário previsto da chegada da mala. "Mas e se não der para voltar?" minha mãe hesitou. Melhor ir para o hotel. Karine pediu então para meu tio esperar na cidade enquanto a mala não chegava. Meu tio respondeu que não, que tinha que voltar para comer umbu (uma fruta típica da região, prima distante do kiwi) hahaha. 

Não satisfeita, neste momento minha mãe sacou o bolinho que não comeu da bolsa e deu para meu tio para ele ficar deboas HAHAHA. Minha mãe encerra as discussões dando comida para as pessoas kkkk. Pegamos a van junto com os funcionários da Gol para o hotel, meu tio pegou o bolinho e voltou para a roça (em casa minha vó confiscou o bolinho e não deixou ninguém relar a não ser ela. Infelizmente no momento ela ingere mais açúcar do que toma água).

Durante o trajeto da van para o hotel ouvirmos as queixas e as ironias dos funcionários da Bola na Trave sobre o ocorrido com os oito passageiros. Os oito embarcariam em um voo internacional e neste caso o check-in se encerra no mínimo com 30 minutos antes do avião decolar, não como os nacionais que se o avião estiver com a turbina a todo combustível ainda dá para embarcar haha. Eles chegaram após os 30 minutos e aí game over para todos. Chegamos no hotel Shalako, nome de cantor árabe de pouco sucesso ou de algum chocolate em Israel kkk. Enfim, esquecemos a falta de uma boa noite de sono e fomos eu e minha mãe "matar ou morrer" no café da manhã. Comemos o suficiente para suportar uma caminhada no deserto por 30 dias, porque 40 apenas Geová, quer dizer, Jesus. 

O "estoque de energia" tinha um motivo, como não achávamos que o almoço não estaria na nossa conta, na da Gol na verdade, locupletamos a ponto de não precisar ter que almoçar. Tristeza definiu o sentimento meu e da minha mãe quando soubemos que tínhamos 40 conto cada para gastar com almoço que a Gol pagava. Não queria ver comida na minha frente e ainda teria que almoçar, porque eu não tinha escolha de não almoçar, é na faixa irmão, só vai.

Por volta das 9:00 estávamos no quarto e nos restava esperar. Minha mãe seguia inquieta, porém bem menos nervosa, acalmada pelas minhas palhaçadas. E eu estava mais paciente que tartaruga esperando para atravessar o cruzamento da avenida Paulista com a rua da Consolação. Como a fome foi embora, decidi esperá-la até às 14:00 para almoçar. Meio-dia dona Iu já pedia comida, mas como não queria comer sozinha, me esperou muito contrariada. Próximo ao horário que estabeleci a completa revelia da minha mãe, o almoço foi servido e Geová definitivamente ficou para trás no deserto. 

Num momento de abstinência da mala, minha mãe quis conferir se guardou as sementes de melancia na bolsa de mão. Até aí, nada demais. A questão é onde ela guardou. Junto com os remédios naquela espécie de "separador de comprimidos". "Ainda bem que na hora do nervoso tomei os remédios certos e não a sementes de melancia" ponderou minha mãe. Mano, HUAHUAHUA. Só comédia. Porém a história perderia a graça.

Nos acomete a boa ideia de voltarmos ao aeroporto ao invés de esperar a mala no hotel. Só que não tinha como avisar ninguém da Gol. Não havia nenhum telefone de contato no formulário de recuperação de bagagem e nem passou pela nossa cabeça pegar o telefone da Karine ou do Marcelo. Pesquiso na internet e nada de concreto. Fui a recepção e o Buzz Lightyear (nome fictício, foi só para dar uma quebrada no texto mesmo hehe) também não encontrou nenhum telefone que nos atenda, mas tinha algo a oferecer. Mariana, amiga dele, trabalha na Gol e poderia nos ajudar na questão. 

Volto ao quarto e aguardo. Enquanto isso, por um site que acompanha vôos no mundo em tempo real (muito útil por sinal), relato a minha mãe que a mala desceu em solo baiano antes das 16:45. Pouco após, Buzz nos informou que a Mariana já sabia do caso e que ela própria nos entregaria a mala, que chegou em segurança. Ela mora no hotel e por isso faria a diligência kkk. Euforia Brasil, e eu e minha mãe até nos abraçamos. O fim estava próximo. Ou não.

Imaginamos que um carro viria expressamente nos entregar a mala e vislumbrávamos até uma carona para encontrarmos nosso tio em frente a rodoviária da cidade e de lá seguirmos viagem. Meu tio Zé, que teve o bolinho surrupiado pela própria sogra, retornou para nos resgatar pela segunda vez, agora acompanhada da esposa, irmã da minha mãe, minha tia, mãe dos meus primos, filha da minha vó.... 

Pedimos para ambos não irem até o hotel, justamente porque seria rápido este processo de vinda da mala e nosso retorno. Como nós estávamos mais distantes do que eles e obrigatoriamente passaríamos pela rodoviária para voltar para casa (a cidade é cortada pela BR-116, principal via para qualquer lugar, inclusive para a roça) melhor nos esperarem lá.

17:30 nada. 18:00 idem. Houve uma troca de funcionários, saiu o Buzz e seu parceiro Woody (haha fictício também) para a entrada de Lilo e Stitch huahuahua. Disney/Pixar em peso no hotel. Já tínhamos encerrado a estadia crentes que a bagagem estava próxima e tivemos que esperar na recepção. Minha mãe questionou Lilo pela demora e ela nos explicou que provavelmente a mala estava vindo na van dos funcionários, a mesma que nos trouxe. Nesse momento o humor da minha mãe, que já não estava bom, foi da água para o vinho e nem Geová, ou melhor, Jesus seria capaz de reverter. A Mariana não respondia mais o WhatsApp e a paciência da minha mãe estava no nível do pré-sal. Saio à garagem, ligo para a Gol (call center) e espero em vão. Uma perca de tempo já sabida antes de discar o número, mas era melhor do que ficar dentro da recepção, olhando minha mãe definhar de raiva e nervoso.

18:30 mais nada e 19:00 mais idem. Aí amigo, se riscasse um fósforo perto da minha mãe pegava fogo. Para completar, Lilo acrescentou a sutil informação de que a van deixaria cada funcionário em sua casa e que o destino final seria o hotel. Mermão, tu não fala uma coisa dessas para alguém impaciente. Minha mãe tratou de ligar para todo mundo que podia e contar o completo descaso da Gol. Eu, obrigado pela minha mãe, peço o telefone da Mariana à Stitch, mas vejo que o WhatsApp Web está aberto na conversa dela e eu mesmo salvo o número no celular. Folgado? Talvez, mas não vi nada demais a vista do que estava acontecendo conosco. Todavia a minha atitude rendeu uma senhora bronca da Lilo em Stitch hahaha. Malz cara. Eu ligava e não atendia, outra hora sequer chamava. Onde está a mala? Mariana deveria estar vindo do aeroporto a pé com ela, já que tinha rodinhas kkk.

19:30 e minha mãe ameaçava chamar a polícia HAHA. Meu pai me enviou uma mensagem perguntando como tinha sido a recepção na casa da minha vó e eu nem tinha condições de responder. 19:45, aproximadamente três horas após a mala estar na cidade, ela reencontrou a dona, mas isso ficou em segundo plano. Quando a van chegou no hotel disse apenas para a minha mãe não bater em ninguém huahuahua. Mariana, que tinha um sorriso no rosto, imaginando a felicidade da passageira ao rever sua bagagem recuperada, teve o semblante mudado de súbito pela agressividade da minha mãe que cobrava tudo e mais um pouco dela e da empresa na qual ela tinha a infelicidade de trabalhar naquele momento. 

Para piorar, Mariana disse que não poderia nos levar até a rodoviária e que a van faria outro trabalho, não mais para a Gol. O motorista da van vendo que a cobra já estava fumando charuto, tratou de dizer que já estava atrasado e saiu do hotel o mais rápido que pode. Minha mãe desabou em choro e não respondia mais nada. Eu assumi o restante das tratativas, sem nenhum clima no hotel e entre as pessoas envolvidas. Assinei um papel, mais amassado que jornal de feira, confirmando a devolução da mala e Mariana sugeriu que pedíssemos um Uber até a rodoviária, registrássemos o ocorrido à Bola na Trave que eles me fariam o ressarcimento do valor da corrida. Minha mãe ficou indignada com essa solução, mas era a menos pior de ruim depois de tudo que ocorreu. 

O carro chegou e minha mãe não se despediu de ninguém, algo raríssimo. Eu não me recordo de uma outra vez em toda a minha vida, ela sempre se despede, até de caixa eletrônico kkk. Eu apenas falei com Stitch, e pensei em pedir desculpas pela bronca, mas acredito que ele aprendeu e ninguém teve culpa de nada, ele só quis me ajudar. Durante o trajeto o motorista do Uber falou que o aeroporto tem mais reclamações que operadora de telefonia e que o "bom" atendimento é padrão. Mais lenha para minha mãe queimar a Gol com todo mundo que ela conhece haha. 

Na troca dos carros, ver minha mãe abraçar minha tia Naide aos risos foi um alento deste dia que começou alegre pela viagem e terminava pesaroso com tamanho estresse passado. Quase que totalmente pela minha mãe diga-se. Eu tive momentos bem ruins, como a confirmação da ausência da mala e a entrega da mesma no hotel, mas ainda assim não perdi as estribeiras com nada. Ainda bem. Um pavio curto ao lado da minha mãe e era capaz de interceptarem o avião ainda no ar para pegar a mala HAHA.

Secretamente torci para que a estrada tivesse um atoleiro e que o carro não passasse para a história ficar ainda melhor huahuahua. Sádico? Talvez, mas nem ligo, o importante é o teor do conto haha. Porém, para a felicidade de todos, a estrada mesmo ruim ainda nos deixou passar e à chegada ao sítio foi uma mistura de alívio, reclamações e deboche, como o da minha outra tia, a Glória, no dia seguinte, que a primeira coisa que disse quando nos viu foi "quem mandou viajar de avião?" hahaha. Minha mãe no auge do drama contava para quem quisesse ouvir que "em 31 anos viajando de ônibus isso nunca tinha acontecido (perca de malas)". Engraçado que nessas horas tudo o que é ruim fica bom, como os mais de 70 dias somados na estrada que ela viveu nessas viagens.

Não pedi ressarcimento à Gol. O custo do Uber não fará falta se pensar no desgaste que seria recuperar esse dinheiro. Eu retornei para São Paulo antes da minha mãe (eu voltei dia 16/01 e ela voltará dia 03/02) e a viagem não teve problemas. Minha mala foi despachada pelo excesso de passageiros e quem estava lá para auxiliar neste processo? Mariana, a assustada hahaha. Acho que ela não me viu e não lembrou quem eu era quando leu meu nome no localizador para trocar minha passagem e poltrona dentro do avião. Talvez se fosse Geová...

Na capital paulista, um passageiro pegou a minha mala antes que eu, mas notou que não era a dele e a devolveu para a esteira. Acho que se eu colocar neon verde irá diferenciar a minha mala de uma vez por todas kkk. Decidi postar a história antes da minha mãe voltar para não perder o fio, já que ela foi bastante tricotada diga-se haha. Todavia se dessa vez a mala ficar na Bahia, é capaz de a minha mãe ir em definitivo para lá e nunca mais voltar à São Paulo. Se tiver uma Maria Silva entre os passageiros então, voltará voando para o sítio kkk. Que Geová nos proteja e entre no avião da próxima vez haha.

2 comentários:

  1. Eu não tenho idéia de como comentar essa publicação. Acho que só um: Parabéns aos envolvidos por este belo começo de ano. Só indica o quão sensacional será 2020. Hahahaha

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  2. Confesso que quando li o título pensei: que lasqueira é essa véi. Agora o título fez total sentido! Que conto foi esse em , ri e fiquei tensa como se estivesse dentro do acontecido...

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